Eslováquia ameaça suspender energia de emergência à Ucrânia

Integração Regional — Europa

Primeiro-ministro eslovaco Robert Fico ameaça suspender fornecimento de eletricidade de emergência à Ucrânia se Kiev não retomar o trânsito de gás russo pelo...

O primeiro-ministro eslovaco Robert Fico ameaçou neste domingo, 22 de fevereiro de 2026, suspender o fornecimento de eletricidade de emergência que a Eslováquia realizava para a Ucrânia caso o governo ucraniano não retomasse o trânsito de gás natural russo pelo território ucraniano em direção à Eslováquia — um fornecimento que havia sido interrompido quando o acordo de trânsito entre Kiev e a empresa Gazprom expirou no final de dezembro de 2024. A declaração de Fico foi divulgada pela Al Jazeera e pela Reuters no mesmo dia 22 de fevereiro e revelava o grau crescente de tensão entre Bratislava e Kiev, ao mesmo tempo em que expunha uma das fraturas mais evidentes na coesão europeia sobre a guerra na Ucrânia.A ameaça de Fico ocorreu às vésperas do quarto aniversário da invasão total russa da Ucrânia, num momento em que líderes europeus se preparavam para celebrar a solidariedade com Kiev e em que o secretário de Estado americano Marco Rubio havia acabado de visitar Bratislava e Budapeste numa tournée que havia endossado publicamente o premiê eslovaco e o húngaro Viktor Orbán. A sequência dos eventos criava um momento de incômodo máximo: enquanto Rubio elogiava Fico como parceiro americano valioso na Europa, o mesmo Fico usava a eletricidade como instrumento de pressão para forçar a Ucrânia a retomar o trânsito de gás russo — essencialmente instrumentalizando um bem vital para a sobrevivência de civis ucranianos durante o inverno europeu.A questão do trânsito de gás é central para compreender a posição de Fico. A Eslováquia, como a Hungria de Orbán, havia historicamente dependido do gás russo transportado pelo gasoduto que atravessava a Ucrânia em direção ao Ocidente. Quando o acordo de trânsito entre Kiev e a Gazprom expirou em dezembro de 2024, a Ucrânia optou por não renová-lo — uma decisão política que privava a Rússia de receitas de trânsito e reduzia o volume de gás russo chegando a alguns países da Europa Central que ainda dependiam desse abastecimento. A Eslováquia e a Hungria foram os países mais afetados pela interrupção do trânsito, o que deu a Fico e a Orbán uma alavanca econômica sobre Kiev que ambos utilizavam de formas distintas.Fico havia, nas semanas anteriores, visitado Moscou pessoalmente para discutir o tema do gás com Vladimir Putin — numa viagem que havia gerado fortes críticas dentro da UE, por tratar-se de um chefe de governo europeu e membro da OTAN visitando o líder de um Estado considerado agressor na guerra mais grave da história europeia pós-1945. A visita a Moscou dava a Fico credenciais como interlocutor com Putin, que o premier eslovaco utilizava para justificar sua posição de defensor de uma negociação com a Rússia em vez de apoio ilimitado à Ucrânia.A reação ucraniana à ameaça de Fico foi de rejeição imediata. O chanceler ucraniano Andriy Sybiha declarou que Kiev não retomaria o trânsito de gás russo como condição para receber eletricidade eslovaca — uma posição que o governo ucraniano havia mantido de forma consistente ao longo de todo o inverno de 2025-2026. A equipe de Zelensky também aproveitou o momento para reafirmar que a Eslováquia era um membro da UE e da OTAN e que a ameaça de Fico representava uma forma de pressão que contradiz os compromissos de solidariedade assumidos pelo bloco europeu como um todo.A Comissão Europeia, instada a responder à ameaça de Fico, buscou uma formulação equilibrada que não incentivasse Bratislava a seguir adiante com a suspensão, sem também constranger abertamente um Estado-membro. Fontes em Bruxelas indicavam que a Comissão considerava a questão do trânsito de gás "uma decisão soberana da Ucrânia" — mas que a resposta de suspensão de eletricidade seria "desproporcional e contrária ao espírito de solidariedade europeia".A crise Eslováquia-Ucrânia de 22 de fevereiro ilustrava de forma aguda como a guerra na Ucrânia havia criado fraturas dentro da própria UE — entre membros que apoiavam irrestritamente Kiev e aqueles que, como a Eslováquia e a Hungria, priorizavam seus interesses energéticos nacionais e relações com Moscou sobre a coesão do bloco. Para o Brasil, o episódio era relevante como caso de estudo nas tensões entre integração regional e soberania nacional: mesmo dentro de uma das organizações de integração mais avançadas do mundo, a UE, a coesão em torno de posições de segurança e energia se revelava frágil quando os interesses nacionais estavam em jogo.