Merz Confirma Visita à China em Fevereiro

Integração Regional — Europa

Chancelaria alemã confirma visita oficial de Friedrich Merz à China para os dias 25 e 26 de fevereiro a convite do premier Li Qiang; missão busca compensar q...

A Chancelaria Federal da Alemanha confirmou neste domingo, 15 de fevereiro de 2026, que o chanceler Friedrich Merz realizará visita oficial à República Popular da China entre os dias 25 e 26 de fevereiro, a convite do premier do Conselho de Estado, Li Qiang, em missão que será a primeira grande viagem bilateral de Merz à Ásia desde sua eleição como chanceler em fevereiro de 2025. A confirmação foi publicada pelo Ministério das Relações Exteriores chinês, que informou que Merz foi convidado pelo premier "a convite de Li Qiang" e que as duas partes discutiriam a relação bilateral e questões internacionais de interesse comum. A visita foi revelada pelo próprio Merz nas margens da Conferência de Segurança de Munique, durante seu encontro com o ministro das Relações Exteriores chinês Wang Yi, em 14 de fevereiro.A viagem tinha como pano de fundo econômico imediato um dado da agência estatística alemã Destatis, que registrara queda de 9,3% nas exportações alemãs para os Estados Unidos ao longo de 2025 — resultado diretamente atribuído ao clima de incerteza comercial criado pela administração Trump, com suas ameaças de tarifas sobre produtos europeus e as crescentes tensões transatlânticas evidenciadas pela Conferência de Munique. A queda das exportações para os EUA tornava o mercado chinês — que em 2024 havia voltado a ser o maior parceiro comercial da Alemanha em volume — ainda mais relevante como âncora da estabilidade exportadora alemã.Durante o encontro entre Merz e Wang Yi na MSC, o ministro chinês havia transmitido as "calorosas saudações" dos líderes chineses ao chanceler alemão e elogiado o discurso de abertura de Merz como reflexo das "expectativas da Alemanha e da Europa por autonomia estratégica e autossuficiência". Wang havia explicitamente pedido que a Alemanha se tornasse uma "âncora estabilizadora" para as relações estratégicas China-Europa num momento de turbulência transatlântica — e a confirmação da visita de Merz a Pequim dez dias depois sinalizava que o chanceler havia aceito o convite implícito.A visita de Merz a Pequim ocorreria num contexto de grandes dilemas para a diplomacia alemã. Por um lado, a Alemanha era um dos países europeus mais expostos à competição econômica chinesa, com o setor automotivo alemão — representado por empresas como Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz — sob crescente pressão dos fabricantes elétricos chineses que avançavam nos mercados europeus. Por outro lado, a dependência alemã do mercado chinês como destino de exportações — especialmente de máquinas industriais, veículos e produtos químicos — era estrutural e não poderia ser revertida no curto prazo.O contexto geopolítico de fevereiro de 2026 criava também uma armadilha de legitimidade para Merz. A China havia mantido postura de suporte implícito à Rússia na guerra da Ucrânia — recusando-se a condenar a invasão e continuando a fornecer componentes de duplo uso que alimentavam a indústria de defesa russa. Ao visitar Pequim pouco mais de dois meses após chegar ao poder, Merz arriscava ser interpretado como priorizando interesses econômicos sobre solidariedade com Kiev — leitura que poderia enfraquecer sua posição nos debates europeus sobre como financiar e apoiar militarmente a Ucrânia.O governo alemão indicou, entretanto, que Merz levaria à China uma agenda substancial, incluindo exigência de condições equitativas no mercado chinês para empresas alemãs, preocupações com a transferência de tecnologia de duplo uso para a Rússia e a defesa da manutenção do papel da China como parceiro comercial comprometido com as regras da OMC. A visita incluiria encontro com o presidente Xi Jinping além do premier Li Qiang, e estava sendo organizada com agenda densa de temas econômicos, climáticos e de segurança.Para o Brasil, a visita de Merz a Pequim era relevante no contexto do que analistas chamavam de "reconfiguração das alianças econômicas" da era Trump. Com os EUA tornando-se um parceiro comercial menos previsível para aliados tradicionais, a China emergia como um polo alternativo tanto para a Europa quanto para o Sul Global — um processo que tinha implicações diretas para o Brasil, que enfrenta o mesmo dilema de equilibrar suas relações com Washington e Pequim. A aproximação entre Berlim e Pequim reduzia a pressão sobre outros países para escolher lados na disputa sino-americana, ao mesmo tempo em que sinalizava que mesmo aliados tradicionais dos EUA estavam diversificando suas parcerias estratégicas.