Após recuo de Trump sobre tarifas, OTAN anuncia acordo para reforço militar no Ártico e...

Governança Global — Europa

Após dias de tensão, Trump recua de ameaças tarifárias contra aliados europeus e anuncia acordo-quadro com a OTAN para reforço militar no Ártico com foco em ...

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu o mundo nesta quinta-feira, 22 de janeiro, ao recuar de suas ameaças de impor tarifas punitivas contra aliados europeus na disputa pela Groenlândia e anunciar um "acordo-quadro" com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para reforçar a presença militar no Ártico, com o objetivo declarado de conter a influência da Rússia e da China na região. O anúncio, feito durante sua participação no Fórum Econômico Mundial em Davos, foi celebrado como uma "détente" pelos mercados financeiros globais, que reagiram com forte alta após dias de turbulência.Trump afirmou que o acordo, negociado nos bastidores com o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, estabelece as bases para uma cooperação duradoura na defesa do Ártico e que todas as partes envolvidas — incluindo a Dinamarca, país ao qual a Groenlândia é vinculada — estão "muito felizes" com o entendimento. O presidente americano destacou que o pacto abordará questões de segurança e acesso a minerais estratégicos na ilha, e garantiu que terá validade "para sempre". A mudança de tom ocorreu horas depois de Trump declarar, na véspera, que uma solução negociada era possível e que os Estados Unidos não buscariam uma anexação forçada do território dinamarquês.A rápida desescalada do conflito, que levou os mercados ao pânico no início da semana, foi suficiente para acalmar os investidores. O índice S&P 500 registrou seu maior ganho em dois meses, subindo 1,16% na quarta-feira, enquanto o Dow Jones e o Nasdaq também operavam em forte alta na abertura do pregão desta quinta. O "índice do medo" VIX recuou para níveis considerados normais, depois de atingir a máxima do ano na terça-feira, e o ouro, que havia alcançado um recorde histórico de US$ 4.887,82 por onça no auge da crise, recuou para patamares abaixo de US$ 4.800, refletindo a busca por ativos de menor risco.Apesar do alívio imediato, analistas ouvidos pela agência Reuters ponderam que é cedo para comemorar. O ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, reiterou a importância da soberania dinamarquesa e do direito à autodeterminação do povo groenlandês, sinalizando que o acordo ainda depende de negociações complexas. O estrategista de câmbio do Commerzbank, Volkmar Baur, advertiu que, da perspectiva europeia, os detalhes do acordo ainda não são conhecidos e que "a próxima onda de excitação" pode não estar tão distante.A trégua momentânea permitiu que os mercados voltassem sua atenção para outros eventos relevantes. Nos Estados Unidos, a Suprema Corte sinalizou que não deve apoiar a tentativa de Trump de demitir a diretora do Federal Reserve, Lisa Cook, num movimento que reforça a independência da autoridade monetária americana e foi bem recebido por investidores. O governo também divulgou novos dados de inflação, com o índice PCE, o preferido do Fed, mostrando uma economia resiliente, o que mantém as expectativas de que o banco central manterá as taxas de juros estáveis em sua próxima reunião.Na Ásia, o iene japonês permanece sob pressão, operando próximo dos 159 por dólar, um nível considerado pelas autoridades como "território de intervenção". O anúncio da primeira-ministra Sanae Takaichi de eleições antecipadas e de medidas para afrouxar a política fiscal continuam a pesar sobre a moeda, enquanto o Banco do Japão inicia uma reunião de dois dias para decidir os rumos da política monetária, sem expectativas de mudanças imediatas. O dólar australiano, por sua vez, saltou para a máxima em 15 meses, impulsionado pela melhora no apetite por risco e por dados surpreendentes que mostraram queda na taxa de desemprego.O desfecho da crise da Groenlândia, ao menos por enquanto, deixa no ar uma pergunta incômoda para os aliados históricos dos Estados Unidos: qual foi o propósito de quatro dias de tensão extrema que abalaram os mercados e as relações transatlânticas? Para analistas, o episódio serviu como um lembrete brutal do quão errática a política externa americana se tornou e de como a imprevisibilidade do presidente Trump se consolidou como uma variável permanente no tabuleiro geopolítico global, capaz de influenciar desde o preço do ouro até a segurança de alianças construídas ao longo de oito décadas.