ONU alerta para riscos no Saara Ocidental com fim de missão
Segurança e Paz — Global
O encerramento da operação de paz ocorreu após veto russo no Conselho de Segurança.
O fim da operação internacionalA Organização das Nações Unidas (ONU) iniciou oficialmente a desmobilização de sua operação de paz no Saara Ocidental, a Missão das Nações Unidas para o Referendo no Saara Ocidental (MINURSO), após 35 anos de atividades. O encerramento ocorreu porque o Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) não conseguiu aprovar a renovação de seu mandato antes do prazo final no sábado. O impasse no Conselho decorreu de divergências diretas entre os Estados Unidos e a Rússia sobre o futuro político do território disputado entre o governo do Marrocos e a Frente Polisário, movimento apoiado pela Argélia. Enquanto o Marrocos celebrou o fim da missão internacional e solicitou a rápida retirada das equipes da ONU, autoridades argelinas e organizações humanitárias manifestaram preocupação com a ausência de monitoramento internacional no deserto norte-africano. Essa paralisia decisória no Conselho altera o equilíbrio de um dos conflitos mais antigos do continente africano.O conflito no Saara OcidentalO Saara Ocidental é uma faixa desértica na costa noroeste da África, rica em reservas de fosfato e recursos pesqueiros, classificada pela ONU como o último território não autônomo do continente. Após a retirada colonial da Espanha em 1975, o Marrocos anexou a maior parte da região reivindicando laços históricos, enquanto a Frente Polisário, que representa a população nativa saarauí e conta com o apoio da Argélia, iniciou uma luta armada pela independência e proclamou a República Árabe Saarauí Democrática (RASD) em 1976. O conflito deslocou ao menos 170 mil saarauís para campos de refugiados na Argélia até 1991, ano em que a ONU mediou um cessar-fogo e criou a MINURSO para monitorar a trégua e organizar um referendo de autodeterminação que nunca chegou a ser realizado. Nos últimos anos, a situação sofreu mudanças importantes com a retomada de confrontos de baixa intensidade em 2020 e a decisão do presidente norte-americano Donald Trump de reconhecer a soberania marroquina sobre o território em troca da normalização diplomática entre Rabat e Israel. Esse apoio ocidental ao Marrocos avançou em outubro de 2025, quando o Conselho de Segurança aprovou uma resolução adotando o plano marroquino de autonomia local sob soberania de Rabat como base para as negociações, medida que preparou o terreno para a disputa diplomática desta semana.Impasse no Conselho de SegurançaA crise que levou à extinção da missão de paz ocorreu durante a votação para renovar o mandato da força internacional no Conselho de Segurança. Os Estados Unidos apresentaram um projeto de resolução que prorrogava a operação por um ano, mas removia a palavra referendo do nome da missão e estabelecia a proposta de autonomia do Marrocos como a única base para negociações futuras. Essa proposta recebeu 11 votos favoráveis (incluindo França e Reino Unido), mas foi barrada pelo veto da Rússia. Em seguida, Moscou submeteu uma proposta alternativa para manter o mandato original da missão sem alterações políticas, porém obteve apenas dois votos a favor, um voto contrário e 11 abstenções, ficando abaixo do mínimo necessário de nove votos para aprovação. O embaixador norte-americano na ONU, Mike Waltz, criticou o uso do veto russo para preservar a menção ao referendo em um conflito de 50 anos, ao passo que o diplomata russo declarou que o texto de Washington era parcial e que o Conselho de Segurança não pode predeterminar questões de soberania. Sem a aprovação de nenhum dos dois textos até a meia-noite de sábado, o mandato da missão expirou automaticamente e provocou reações opostas entre os atores regionais.Reações regionais e alerta de GuterresO fim das atividades da MINURSO foi comemorado pelo Marrocos, que classificou a extinção do mandato como um avanço, pediu que o tema saia da pauta do Conselho de Segurança e solicitou a retirada imediata dos equipamentos da ONU, embora tenha reafirmado seu compromisso com o cessar-fogo na região, onde mantém entre 100 mil e 140 mil militares. Em sentido oposto, a Argélia manifestou pesar pelo encerramento da operação e responsabilizou os Estados Unidos pelo impasse, enquanto o representante da Frente Polisário na ONU saudou o veto russo por considerar que o texto norte-americano anulava a autodeterminação saarauí. Diante disso, o secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou hoje para o risco de agravamento das hostilidades e pediu máxima contenção às partes. Essa preocupação foi reforçada pela Oxfam, confederação internacional de organizações humanitárias que atua no auxílio aos refugiados da região, a qual advertiu que a ausência das equipes de monitoramento da ONU pode comprometer a estabilidade regional e o apoio às populações afetadas pelo conflito.