Rússia cede controle de bases militares para a Síria sob novo acordo
Segurança e Paz — Oriente Médio
Damasco e Moscou firmam memorando para transferência de instalações em Tartus e Hmeimem após dezoito meses de negociações.
Damasco retoma controle de infraestruturas estratégicas na costaO Ministério das Relações Exteriores da Síria anunciou, em 09 de agosto, a celebração de um Memorando de Entendimento com a Federação da Rússia para a transferência do controle de instalações militares e logísticas fundamentais no litoral do Mar Mediterrâneo. O documento estabelece que Moscou abra mão do domínio exclusivo sobre a base aérea de Hmeimem e a base naval de Tartus, que funcionaram como pilares da projeção de força russa na região durante a última década. Nos termos do pacto, a Síria passará a gerir diretamente as operações civis, incluindo o aeroporto de Hmeimem e o cais comercial do porto de Tartus. Este marco diplomático encerra 18 meses de negociações complexas iniciadas imediatamente após a transição de poder na capital síria.O novo pragmatismo sírio nas relações bilateraisO novo acordo ocorre em um cenário de profunda transformação política na Síria, desde a queda do regime de Bashar al-Assad em dezembro de 2024 à ascensão do governo interino liderado por Ahmad al-Sharaa. Durante a guerra civil síria, ocorrida entre 2011 e 2024, a Rússia consolidou-se como a principal garantidora da sobrevivência do governo anterior por meio de uma intervenção direta iniciada em 2015. Com a vitória dos grupos insurgentes, a nova liderança em Damasco adotou uma postura de pragmatismo diplomático, buscando reaver a soberania territorial sem romper totalmente os laços com Moscou. O Presidente Ahmad al-Sharaa realizou duas visitas oficiais a Vladimir Putin para discutir o status das bases, ao mesmo tempo em que promovia uma reaproximação com os Estados Unidos da América (EUA) e com a União Europeia (UE). Este equilíbrio de forças permitiu que a Síria reduzisse a dependência externa enquanto estabilizava sua posição nos foros internacionais.Mecanismos de transiçãoO novo acordo detalha um cronograma de 90 dias para que a administração civil da Síria assuma integralmente a gestão das infraestruturas comerciais e de transporte anteriormente operadas por Moscou. Segundo as diretrizes do memorando, a Autoridade Geral de Portos e Alfândegas (AGPA) da Síria passará a controlar o aeroporto de Hmeimem e o cais comercial número 4 no porto de Tartus, incluindo seus armazéns e instalações acessórias. Enquanto as tropas russas de combate já realizam uma saída gradual do território sírio desde o colapso do governo anterior, o pacto permite a manutenção de um centro logístico comercial sob supervisão direta de Damasco. As instalações militares remanescentes serão convertidas em centros de qualificação técnica, onde instrutores russos atuarão em conjunto com oficiais locais por um período determinado. Esta mudança de status jurídico transforma o que antes era uma concessão de controle total em uma parceria de treinamento mútua que respeita os novos protocolos de soberania nacional.Reconfiguração do equilíbrio de poder no Mediterrâneo OrientalA reorganização das forças russas na costa síria altera a dinâmica de segurança no Oriente Médio e a projeção de influência russa no flanco sul da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Desde a década de 1970, com a base naval de Tartus, e a partir de 2015, com a base aérea de Hmeimem, a Federação da Rússia utilizou esses postos como seus principais pontos de apoio militares fora do espaço pós-soviético. A cessão do controle administrativo para o novo governo de Ahmad al-Sharaa sinaliza um recuo estratégico de Moscou, possivelmente motivado pela necessidade de concentrar recursos em outras frentes geográficas e pela estabilização da nova ordem política em Damasco. Simultaneamente, a suspensão da maior parte das sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos da América (EUA) e a retomada de relações diplomáticas com a França indicam que a Síria busca uma inserção internacional mais plural e tenta se reequilibrar entre as potências globais e seus vizinhos regionais.