Guterres defende o multilateralismo e a necessidade de reformas no Dia da Carta das Naç...

Governança Global — Global

Secretário-geral e presidente da Assembleia Geral reafirmam importância do documento fundador diante de crises atuais e pedem modernização estrutural.

Apelo global no aniversário da CartaO secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, e a presidente da Assembleia Geral, Annalena Baerbock, defenderam nesta sexta-feira, 26 de junho de 2026, um compromisso urgente com o multilateralismo. O pronunciamento institucional ocorreu na sede da entidade em Nova York, nos Estados Unidos (EUA), durante a cerimônia oficial que marcou o 81º aniversário da assinatura da Carta das Nações Unidas. Sob o tema central "Melhores Juntos: Uma Carta, Um Futuro", as autoridades enfatizaram que a cooperação internacional continua sendo a única alternativa viável para a governança no sistema internacional. Esse forte apelo tenta conter as críticas crescentes à dificuldade da instituição em prevenir conflitos armados recentes.Pressões sobre o direito internacionalA celebração diplomática deste ano foi pautada pelo reconhecimento das graves crises que desafiam as normas estabelecidas em 1945. Guterres alertou que a promessa fundadora da ONU sofre uma pressão sem precedentes, citando as guerras de expansão territorial, a fome utilizada como arma de guerra e as violações documentadas de cessar-fogo em várias regiões. Para o secretário-geral, o documento fundador não é um cardápio do qual os Estados podem escolher apenas o que lhes convém. A aplicação seletiva dos princípios de soberania e de direitos humanos gera um ambiente perigoso de incerteza, o qual prejudica a segurança de todos os países. Essa postura contundente sinaliza uma cobrança por maior coerência diplomática por parte das potências globais.Isolacionismo e os limites estataisApesar do cenário internacional fragmentado, as duas lideranças rejeitaram publicamente a narrativa de que o recuo e o isolacionismo representam medidas seguras de proteção para as nações. Baerbock argumentou que nenhum país tem a capacidade soberana de governar as inovações em inteligência artificial, de conter o aquecimento do planeta ou de mitigar pandemias de forma solitária. A diplomata reconheceu falhas estruturais em cenários complexos como Sudão, Ucrânia, Gaza e Líbano, mas ressaltou que as missões de paz e as campanhas humanitárias seguem salvando milhões de vidas diariamente. O reconhecimento simultâneo das falhas e das vitórias históricas busca legitimar o papel ainda insubstituível da organização.A urgência da modernização estruturalDiante das críticas debatidas na cerimônia, ambos os líderes concordaram que a resposta para as turbulências não é o enfraquecimento da instituição, mas sim a sua modernização pragmática. Guterres cobrou publicamente que o Conselho de Segurança e a atual arquitetura financeira internacional sejam reformados de forma profunda, para que possam refletir a distribuição de poder de hoje, e não a dinâmica mundial do final da Segunda Guerra Mundial. O processo de adaptação institucional, articulado nos moldes da iniciativa "UN80", carrega o objetivo explícito de tornar a governança global mais ágil e eficiente. A reestruturação da ONU consolida-se, desse modo, como uma exigência prática incontornável para a própria sobrevivência do sistema multilateral focado na paz.