Contra Trump Imprevisível: Canadá, UE, Austrália e Reino Unido Aceleram Novas Alianças
Governança Global — Global
Canadá, UE, Austrália e Reino Unido correm para forjar novas alianças comerciais e de segurança diante de um Trump imprevisível
Diante de um presidente americano cujos golpes de política econômica e comercial têm sido cada vez mais imprevisíveis e perturbadores, países de todo o mundo corriam neste dia 10 de fevereiro de 2026 para forjar novas alianças e parcerias que reduzissem sua dependência dos Estados Unidos — numa reconfiguração da ordem comercial e diplomática global que analistas descreveram como a mais profunda desde o fim da Guerra Fria, conforme documentou a Al Jazeera em ampla análise publicada nesta terça-feira sob o título "Diante de um Trump imprevisível, países correm para forjar novas alianças". A análise consolidava tendências que se vinham acumulando desde a posse do presidente Donald Trump em janeiro de 2025 e que haviam se acelerado dramaticamente nos primeiros meses de 2026."É difícil exagerar a disrupção que Donald Trump infligiu ao sistema comercial global", declarou Robert Rogowsky, professor adjunto de diplomacia e comércio da Universidade Georgetown, em entrevista à Al Jazeera. Rogowsky acrescentou que Trump havia subestimado as potências médias do mundo — em referência ao chamado do primeiro-ministro canadense Mark Carney, no Fórum Econômico Mundial de Davos no início de 2026, para que países menores se unissem e demonstrassem "cooperação genuína" enquanto as grandes potências se voltavam para si mesmas.O caso canadense era o mais ilustrativo das novas dinâmicas em curso. Carney havia se tornado, em janeiro de 2026, o primeiro líder canadense a visitar a China em quase uma década, buscando redefinir laços que haviam sido congelados desde que autoridades canadenses prenderam em dezembro de 2018 uma alta funcionária da gigante de telecomunicações chinesa Huawei. A visita de Carney a Pequim era uma sinalização inequívoca: o Canadá não estava disposto a permanecer indefinidamente dependente de um único parceiro comercial que havia se tornado "erraticamente hostil" — nas palavras de Rogowsky — a seus aliados mais próximos.Vina Nadjibulla, vice-presidente da Asia Pacific Foundation of Canada, explicou à Al Jazeera a lógica subjacente ao movimento canadense e à estratégia mais ampla das potências médias: "Os países estão tentando diversificar parcerias econômicas e de segurança. A maioria dos aliados dos EUA, especialmente no Indo-Pacífico, não irá se desacoplar dos EUA — os EUA são muito importantes, especialmente para a segurança. Mas todos estão procurando uma estratégia 'EUA-plus' para minimizar os riscos." A fórmula "EUA-plus" condensava com precisão a abordagem que vários países adotavam: manter os EUA como parceiro insubstituível para questões de segurança, ao mesmo tempo em que buscavam mercados e parceiros alternativos para reduzir a vulnerabilidade às pressões econômicas de Washington.O movimento não se restringia ao Canadá. A União Europeia acelerava negociações para finalizar o acordo comercial com a Austrália — um texto que havia ficado paralisado por oito anos. Acordos de livre comércio com o bloco Mercosul (incluindo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) e com a Índia estavam sendo finalizados com renovada urgência. O Reino Unido, após um período de distanciamento diplomático de Pequim, havia retomado contatos de alto nível com a China. A Alemanha — cujas exportações para os EUA haviam caído 9,3% em 2025 segundo dados da Destatis — preparava uma visita oficial do chanceler Friedrich Merz a Pequim, agendada para a última semana de fevereiro.A análise da Al Jazeera identificava a raiz estrutural do movimento: "essa determinação está enraizada em uma realidade simples. Para muitos países, a estabilidade econômica é uma questão de sobrevivência nacional. Diante de choques repetidos vindos de Washington, eles não podem permanecer dependentes de um parceiro comercial cada vez mais errático." A expressão "parceiro cada vez mais errático" sintetizava a percepção comum que movia governos de orientações políticas muito diferentes — de progressistas como Lula no Brasil a conservadores como Merz na Alemanha — para o mesmo movimento de diversificação.A paradoxo da situação era que os EUA continuavam sendo, em todos os casos, o parceiro insubstituível em questões de segurança. Nenhum dos países que diversificava suas parcerias econômicas estava se preparando para substituir os EUA como garantidor de sua segurança. O que mudava era o equilíbrio da dependência econômica — e a disposição de dizer "não" a Washington em questões comerciais, mesmo no contexto de alianças de segurança mantidas. Rogowsky apontou essa transformação como historicamente inédita no pós-Guerra Fria: pela primeira vez, os aliados ocidentais estavam sistematicamente diversificando seus laços econômicos independentemente de suas alianças de segurança.Para o Brasil, a análise da Al Jazeera de 10 de fevereiro era de altíssima relevância. O governo Lula havia adotado exatamente a estratégia descrita como "EUA-plus": manter diálogo com Washington enquanto aprofundava parcerias com China, UE e outros atores do Sul Global. O acordo Mercosul-UE, finalmente assinado após mais de 25 anos de negociações, era o exemplo mais concreto dessa estratégia em ação. A presidência brasileira do G20 em 2024 havia sido um instrumento de projeção da posição brasileira nesse quadro de multipolaridade emergente.