Comércio entre Brasil e China atinge recorde de US$ 143 bilhões
Economia e Comércio — América do Sul
O resultado de janeiro a setembro reflete vendas de petróleo e compras de veículos elétricos.
Recorde histórico em 2026O intercâmbio comercial entre o Brasil e a China atingiu um recorde histórico nos primeiros nove meses de 2026. Entre janeiro e setembro de 2026, a corrente de comércio bilateral alcançou US$ 143,3 bilhões, o que representa um crescimento de 11,1% na comparação com o mesmo período de 2025. Os números constam em relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), elaborado com base nas estatísticas oficiais da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), órgão vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). O avanço ocorreu em razão do aumento das exportações brasileiras de matérias-primas, especialmente petróleo bruto e soja, combinado à entrada de bens industriais e veículos eletrificados de fabricação chinesa no mercado nacional. No acumulado do período, as vendas brasileiras para o país asiático somaram US$ 84,7 bilhões (alta de 12%), enquanto as compras originárias da China totalizaram US$ 58,6 bilhões (avanço de 9,9%). Esse fluxo financeiro consolidou um saldo amplamente favorável para as contas externas brasileiras e preparou o terreno para a manutenção da liderança asiática na balança comercial do país.Centralidade chinesa no superávit e na diplomacia econômica brasileiraA expansão das trocas comerciais reafirmou a posição da China como o principal parceiro comercial do Brasil, posto que o país asiático ocupa de maneira ininterrupta desde 2009. Sozinho, o mercado chinês concentrou 28,3% de todo o comércio exterior brasileiro nos três primeiros trimestres de 2026, absorvendo 29,7% das exportações totais do Brasil e fornecendo 26,4% das importações. Como consequência direta desse volume, o Brasil registrou um superávit comercial bilateral de US$ 26,1 bilhões, montante que equivale a 42% de todo o saldo comercial positivo obtido pelo país no mundo durante o período. No plano institucional e diplomático, esse desempenho econômico acompanha as diretrizes de aproximação conduzidas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pelo vice-presidente e titular do MDIC, Geraldo Alckmin, e pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, no diálogo com o governo do presidente chinês Xi Jinping no âmbito da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban). A soja e o petróleo brutoO desempenho das exportações brasileiras continuou ancorado nos setores do agronegócio, de energia e de mineração, que juntos responderam por mais de três quartos dos embarques ao território chinês. A soja manteve o posto de principal produto exportado pelo Brasil para a China, gerando US$ 30 bilhões em receitas (crescimento anual de 3,6%) e representando 35,4% de tudo o que o país vendeu ao parceiro asiático. O mercado chinês foi o destino de 70% de todos os embarques brasileiros da oleaginosa entre janeiro e setembro. Todavia, o maior salto percentual entre os itens de grande volume ocorreu no setor energético. As exportações brasileiras de petróleo bruto para a China cresceram 49% em relação aos primeiros nove meses de 2025, atingindo a marca de US$ 21,8 bilhões e absorvendo metade de todas as vendas externas do óleo brasileiro. Na terceira colocação, o minério de ferro movimentou US$ 13,8 bilhões. Além dessas matérias-primas tradicionais, a transição energética global passou a influenciar novas frentes de negócios entre os dois países.Avanço dos veículos eletrificados e do lítio na transição energéticaA transformação tecnológica voltada à descarbonização remodelou tanto a pauta de importações quanto os novos nichos de exportação bilateral em 2026. Do lado das compras brasileiras, as importações de automóveis elétricos fabricados na China subiram 341% em valor, alcançando cerca de US$ 2,4 bilhões, enquanto as compras de híbridos plug-in avançaram 89%, somando US$ 2,871 bilhões. Já as aquisições de veículos híbridos convencionais cresceram 248%, atingindo US$ 641 milhões, o que fez a indústria chinesa concentrar 86% das importações brasileiras nessas categorias automotivas. Em sentido complementar, o Brasil ampliou o fornecimento de insumos minerais necessários para a fabricação das baterias que equipam essa frota. As exportações brasileiras de espodumênio, mineral do qual se extrai o lítio, cresceram 339% no período e somaram US$ 172,3 milhões, tendo a China como compradora de 97% desse volume. Essa dinâmica conjunta entre minerais críticos e indústria automotiva contrasta com as oscilações enfrentadas pelo setor de proteínas animais no mesmo intervalo.Carne bovina e importância da relaçãoO intercâmbio no setor de proteínas animais refletiu dinâmicas distintas entre os segmentos exportadores do agronegócio. Enquanto as vendas de frango para a China subiram 113% (US$ 1,15 bilhão), as exportações de carne bovina caíram 8,5% em valor e 22% em volume, passando a sofrer sobretaxa chinesa de 55% (somada à tarifa regular de 12%) em 1º de outubro de 2026, após o esgotamento da cota anual de 1,106 milhão de toneladas. Diante desses resultados, a relação comercial sino-brasileira segue como um eixo central da política externa do Brasil na busca por investimentos em infraestrutura, transição energética e reindustrialização. Para a diplomacia brasileira, a perspectiva estratégica para os próximos anos consiste em utilizar esse volume recorde de comércio para negociar maior abertura a bens de alto valor agregado, garantindo que a parceria com Pequim impulsione o desenvolvimento tecnológico e a produtividade nacional no longo prazo.