Merz visita Xi Jinping em Pequim: foco em comércio e parceria estratégica

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Chanceler alemão Friedrich Merz inicia viagem oficial de dois dias à China, encontrando-se com o presidente Xi Jinping e o premier Li Qiang; agenda inclui co...

O chanceler alemão Friedrich Merz chegou a Pequim nesta segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026, para uma visita oficial de dois dias à República Popular da China, a convite do premier do Conselho de Estado, Li Qiang — tornando-se o primeiro líder alemão a visitar a China desde que Olaf Scholz realizou uma viagem controvertida a Pequim em novembro de 2022. A viagem, que Merz havia anunciado nas margens da Conferência de Segurança de Munique durante seu encontro com o ministro das Relações Exteriores Wang Yi em 14 de fevereiro, era amplamente aguardada como um sinal do tipo de equilíbrio pragmático que o governo alemão buscava entre suas obrigações de solidariedade com parceiros ocidentais e a necessidade urgente de preservar laços econômicos com a maior parceira comercial da Alemanha.No primeiro dia da visita, Merz se encontrou com o presidente Xi Jinping no Grande Palácio do Povo em Pequim, numa reunião que os dois lados descreveram como "franca e construtiva". Xi recebeu Merz com protocolo de visita de Estado de alto nível, sinalizando o peso que Pequim atribuía ao reengajamento com a Alemanha após dois anos de relações tensas marcadas por debates sobre 5G, investigações da UE sobre subsídios a veículos elétricos chineses e o apoio implícito de Pequim à Rússia na guerra da Ucrânia. O Ministério das Relações Exteriores chinês publicou nota descrevendo a reunião como tendo avançado em "parceria estratégica abrangente" entre os dois países.A agenda da visita era densa e tocava em temas sensíveis para ambos os lados. No campo econômico, Merz levou a Pequim as preocupações do setor industrial alemão com o que descreve como competição desleal de fabricantes chineses de veículos elétricos no mercado europeu — subsidiados pelo Estado de forma que tornava os produtos chineses artificialmente mais baratos do que os concorrentes europeus. A investigação da Comissão Europeia sobre os subsídios chineses a EVs havia resultado em tarifas extras, que Pequim havia contestado formalmente na Organização Mundial do Comércio, criando um litígio comercial de alto impacto. Merz buscava uma fórmula que permitisse à Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz continuarem operando no mercado chinês — que representava entre 25% e 40% das vendas globais das três montadoras — sem se tornarem alvos de retaliações comerciais de Pequim.No campo geopolítico, Merz levantou diretamente, segundo fontes do governo alemão, a questão da transferência de tecnologia de duplo uso da China para a Rússia — componentes eletrônicos e outros materiais que alimentavam a indústria de defesa russa e que haviam se tornado objeto de denúncias formais dos parceiros da OTAN. Xi, segundo as mesmas fontes, reiterou a posição chinesa de que não fornecia armamentos à Rússia e de que as transações comerciais de empresas privadas chinesas não podiam ser inteiramente controladas por Pequim — uma posição que os ocidentais classificavam como insatisfatória diante das evidências de que componentes microeletrônicos de origem chinesa estavam sendo encontrados em drones e mísseis russos capturados no campo de batalha ucraniano.A questão climática também ocupou espaço significativo na agenda. A Alemanha e a China, como dois dos maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo, mantinham um diálogo de alto nível sobre transição energética e descarbonização que havia sobrevivido mesmo às tensões dos anos anteriores. Merz manifestou interesse em aprofundar a cooperação em energia eólica offshore, onde empresas alemãs e chinesas tinham posições complementares — um campo onde a cooperação econômica podia prosperar independentemente das tensões geopolíticas.O contexto econômico da visita era direto: as exportações alemãs para os EUA haviam caído 9,3% em 2025, segundo dados da agência estatística Destatis, tornando o mercado chinês ainda mais essencial para a saúde das exportações alemãs. Com a Volkswagen em particular enfrentando uma crise profunda — decorrente de queda de demanda por seus veículos a combustão e pressão dos concorrentes chineses de EVs —, a missão empresarial que acompanhava Merz a Pequim incluía representantes de dezenas de empresas industriais alemãs de médio e grande porte, num sinal de que o governo federal alemão via a visita como uma missão estratégica de preservação da base exportadora industrial do país.Para o Brasil, a visita de Merz à China em 23 de fevereiro de 2026 tinha implicações relevantes por ao menos duas razões. Primeiro, a aproximação Berlim-Pequim reduzia a pressão sobre outros países — incluindo o Brasil — para escolherem lados na competição sino-americana, ao sinalizar que um aliado central dos EUA também diversificava suas parcerias. Segundo, a questão dos subsídios a veículos elétricos chineses e as tarifas europeias era um debate com implicações diretas para o Brasil, que discutia os termos do acordo Mercosul-UE e que precisava equilibrar sua relação com a China — seu maior parceiro comercial — com os requisitos de acesso ao mercado europeu.