Estudo da ONU adverte que mundo entrou em "era de falência global da água" e que crise ...
Meio Ambiente — Global
Relatório da ONU-Água divulgado em 22 de janeiro adverte que o planeta entrou em "era de falência global da água", com 40% da população afetada pela escassez...
O mundo entrou oficialmente em uma "era de falência global da água", segundo um relatório contundente divulgado nesta quinta-feira, 22 de janeiro, pela ONU-Água, o mecanismo da Organização das Nações Unidas responsável pela coordenação de políticas relacionadas aos recursos hídricos. O documento, intitulado "Crise da Água Pós-Realidade: Rumo à Falência Global?", alerta que a combinação letal de escassez, poluição, má gestão crônica e os impactos acelerados das mudanças climáticas está levando o planeta a um ponto de não retorno, com consequências diretas para a estabilidade econômica, social e política de dezenas de países.O relatório, que compila dados de diversas agências da ONU e instituições de pesquisa, estima que cerca de 40% da população mundial já vive em regiões com algum nível de escassez de água. A situação é particularmente grave em áreas como o Norte da África, o Oriente Médio, o Sul da Ásia e partes da América Latina, onde a competição por recursos hídricos tem se intensificado e, em alguns casos, já se transformou em fonte de tensões e conflitos. O documento cita explicitamente a situação do Irã, onde décadas de má gestão, construção excessiva de barragens e esgotamento de aquíferos têm contribuído para o aprofundamento da crise econômica e para o descontentamento social que alimenta os protestos que tomam conta do país desde dezembro.Johannes Cullmann, diretor da Divisão de Água e Criosfera da Organização Meteorológica Mundial (OMM), um dos especialistas que contribuiu para o estudo, afirmou que o conceito de "falência global da água" não é uma metáfora, mas uma descrição precisa do processo de esgotamento dos recursos hídricos do planeta. "Assim como uma empresa que gasta mais do que fatura, a humanidade está consumindo água doce a uma taxa insustentável, esgotando aquíferos fósseis, secando rios e lagos e comprometendo a capacidade dos ecossistemas de se regenerarem", explicou em entrevista à agência de notícias Associated Press.O relatório destaca que a crise hídrica não é um problema futuro, mas uma realidade presente que se manifesta de múltiplas formas. A insegurança hídrica afeta a produção de alimentos, com safras perdidas por secas em regiões como a África Austral e o Corno de África, onde as populações já enfrentam níveis críticos de fome. Impacta também a geração de energia, com hidrelétricas operando com capacidade reduzida na América do Sul e na Ásia, e a saúde pública, com a proliferação de doenças de veiculação hídrica em áreas onde o acesso à água potável é limitado. O documento também menciona os recentes eventos extremos, como as enchentes que devastaram partes da Indonésia e da África do Sul, que, embora aparentemente paradoxais, fazem parte do mesmo quadro de desequilíbrio climático que torna o ciclo hidrológico mais errático e violento.Um dos conceitos centrais do estudo é o de "círculo vicioso" da degradação ambiental e da insegurança humana. A escassez de água leva à superexploração de aquíferos e ao uso de fontes contaminadas, o que degrada a qualidade dos recursos remanescentes e aumenta os custos de tratamento. Isso, por sua vez, reduz a disponibilidade de água para a agricultura e a indústria, afetando a produção de alimentos e o crescimento econômico. A perda de produtividade e a insegurança alimentar geram deslocamentos populacionais e tensões sociais, que podem se transformar em conflitos abertos, como já se observa em regiões como a bacia do Lago Chade e o Vale do Indo. Os conflitos, por fim, destroem a infraestrutura hídrica e dificultam ainda mais a gestão dos recursos, completando o ciclo.O relatório também dedica atenção especial à situação dos aquíferos transfronteiriços, que são fontes de água compartilhadas por dois ou mais países. O documento estima que existam mais de 600 aquíferos desse tipo no mundo, mas apenas uma fração deles é gerida por acordos de cooperação internacional. A ausência de mecanismos de governança para esses recursos compartilhados é uma bomba-relógio geopolítica, especialmente em regiões como o Oriente Médio e a África, onde o crescimento populacional e as mudanças climáticas devem intensificar a competição por água nas próximas décadas.A divulgação do estudo ocorre num momento em que o mundo começa a despertar para a gravidade da crise hídrica. Eventos como a seca histórica na bacia do Rio Paraná, que afetou a geração de energia no Brasil e na Argentina, as enchentes catastróficas na Alemanha e na Bélgica em 2021 e a atual situação de escassez na bacia do Rio Colorado, nos Estados Unidos, são apontados como sinais de um padrão mais amplo de desequilíbrio. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já havia alertado em relatórios anteriores que o aquecimento global intensifica o ciclo hidrológico, tornando as regiões úmidas mais úmidas e as secas, mais secas, mas o novo estudo da ONU-Água vai além ao conectar esses fenômenos à falência da gestão humana.Gilbert Houngbo, presidente da ONU-Água e diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), afirmou na apresentação do relatório que "a água é a base da vida, da economia e da estabilidade. Quando a água falta ou é poluída, tudo o mais entra em colapso: a saúde, a educação, o emprego, a segurança". Houngbo pediu que os governos de todo o mundo tratem a segurança hídrica como prioridade estratégica, investindo em infraestrutura, gestão sustentável e cooperação internacional, e alertou que "o custo da inação será medido em vidas perdidas, economias destruídas e conflitos que poderiam ter sido evitados".A comunidade internacional começa a reagir ao alerta. A União Europeia anunciou que incluirá a segurança hídrica como tema prioritário em sua próxima cúpula de desenvolvimento sustentável, enquanto a África do Sul, um dos países mais afetados pela seca no continente, declarou que pretende criar uma agência nacional de gestão de recursos hídricos inspirada em modelos de países como Holanda e Singapura. O governo brasileiro, por meio do Ministério do Meio Ambiente, afirmou que está revisando seu Plano Nacional de Recursos Hídricos para incorporar as recomendações do estudo da ONU, especialmente no que diz respeito à proteção de aquíferos e à gestão de riscos em regiões semiáridas como o Nordeste.O relatório da ONU-Água é um lembrete sombrio de que a crise climática não é apenas uma questão de temperatura e emissões de carbono. Ela é, acima de tudo, uma crise da água — o recurso mais essencial para a vida humana e para o funcionamento das sociedades. E, como alerta o documento, a janela para evitar a "falência global" está se fechando rapidamente. As decisões tomadas nesta década determinarão se o mundo conseguirá navegar pela crise com algum grau de estabilidade ou se mergulhará num futuro de escassez, conflitos e deslocamentos em massa, onde a água será, cada vez mais, um prêmio disputado por nações, comunidades e indivíduos.