ONU exige maior participação feminina em acordos globais de paz
Governança Global — Global
A cobrança foi feita pelo Secretário-Geral no Conselho de Segurança após cortes de financiamento.
O apelo do Secretário-GeralO Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, exigiu ações urgentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) para garantir a presença de mulheres nos acordos de paz. O pronunciamento ocorreu durante o debate anual aberto sobre a agenda de Mulheres, Paz e Segurança (MPS), em referência aos 26 anos da Resolução 1325, de 2000, marco fundador da agenda sobre MPS. Guterres ressaltou que o compromisso internacional gerou pouca ação prática nas últimas décadas: as mulheres representaram, em 2025, apenas 5% dos negociadores em 57 processos de paz monitorados, e menos de um quinto dos acordos globais mencionou questões de gênero ou violência sexual. Essa baixa representatividade diplomática ocorre no momento em que o mundo registra o maior número de guerras desde a Segunda Guerra Mundial.Aumento de guerras e violênciaA expansão dos conflitos armados em regiões como Gaza, Ucrânia, Sudão, Mianmar e Sahel deteriorou rapidamente a segurança de mulheres e meninas em 2026. De acordo com dados da Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres), cerca de 750 milhões de mulheres e meninas vivem hoje a menos de 50 quilômetros de zonas de combate ativo. Esse é o nível mais elevado desde 1990. Além disso, a ONU verificou mais de 9.700 casos de violência sexual relacionada a conflitos no último ano, enquanto mulheres e meninas passaram a representar um quarto dos mais de 37 mil civis mortos em guerras. O uso frequente de armas explosivas em áreas povoadas aumentou a mortalidade materna em um cenário que se agrava pela falta de recursos financeiros internacionais.O contraste entre gastos militares e humanitáriosEnquanto os gastos militares globais chegaram a quase US$ 2,9 trilhões no último ano, os cortes no financiamento humanitário forçaram o fechamento de clínicas, abrigos e organizações lideradas por mulheres em zonas de crise. Cerca de 170 milhões de mulheres e meninas vivem atualmente em situação simultânea de guerra e pobreza extrema, sobrevivendo com menos de US$ 3 por dia em países onde o trabalho doméstico não remunerado feminino é cinco vezes maior que o masculino. Em locais como Afeganistão, Mali, Iêmen e Somália, grupos em conflito também impõem restrições diretas ao trabalho de funcionárias da ONU.Metas da ONU e BrasilMais de 110 países já adotaram planos nacionais voltados à agenda da Resolução 1325, mas Guterres defendeu três novas medidas práticas para evitar retrocessos: estabelecer cotas obrigatórias para mulheres em todas as mesas de negociação, restaurar o financiamento para grupos locais em áreas de deslocamento forçado e aplicar tolerância zero contra a violência de gênero. No âmbito sul-americano, o Brasil participa desse esforço com a implementação do seu II Plano Nacional de Ação sobre Mulheres, Paz e Segurança, coordenado pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) para unir a formação de militares em missões de paz com políticas internas de segurança e direitos humanos. Esse é um importante pilar da diplomacia externa brasileira, mas a governança global da MPS ainda precisa que as demais potências transformem as cotas de participação feminina em compromissos financeiros reais nos próximos acordos de paz.