EUA impõem tarifas a 60 países e Brasil promete recorrer à OMC

Economia e Comércio — Global

A acusação de Washington sobre trabalho escravo provoca reações diplomáticas imediatas ao redor do mundo.

A política tarifária sob a justificativa de direitos humanosO governo dos Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, anunciou a imposição de novas tarifas sobre produtos oriundos de 60 parceiros comerciais, incluindo a União Europeia, a China e o Brasil. A justificativa oficial de Washington, fundamentada em investigações da Seção 301 de sua legislação interna, alega fiscalização insuficiente das proibições de importação de bens produzidos por trabalho forçado por parte destas nações. A medida punitiva, que aplica taxas de 10 e 12,5%, entra em vigor simultaneamente ao fim de uma tarifa global temporária de 10% aplicada anteriormente. Esse movimento eleva o grau de incerteza do mercado financeiro e afeta diretamente as cadeias de suprimentos globais, utilizando uma pauta de direitos humanos como pilar para restrições comerciais.As reações internacionais às novas sançõesA decisão unilateral norte-americana provocou respostas variadas da comunidade internacional. A chefe de política externa da União Europeia, Kaja Kallas, classificou a medida como uma quebra inesperada de acordos prévios, defendendo a superioridade das leis trabalhistas no bloco europeu em relação às regulamentações norte-americanas. O ministro do Comércio da Austrália considerou a ação totalmente injustificada e prometeu defender a isenção de taxas para os produtos australianos. No continente americano, o ministro da Economia do México minimizou o impacto, afirmando que a nova taxa apenas substitui a anterior, mantendo o efetivo tratamento tarifário do país. Na Ásia, o primeiro-ministro da Malásia expressou alívio pela taxa nacional ter ficado no patamar de 10 por cento, enquanto as Filipinas destacaram o estrito cumprimento das convenções internacionais para preservar a estabilidade da sua cadeia de exportações de eletrônicos para os norte-americanos.O repúdio do governo brasileiro e os impactos diretos nas exportaçõesO Brasil, cujas exportações para o mercado norte-americano sofrerão a taxação máxima estipulada de 12,5%, repudiou formalmente a iniciativa. O governo federal destacou que os acordos de livre comércio celebrados pelo Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) com parceiros como Chile e União Europeia já exigem compromissos rigorosos de eliminação do trabalho compulsório. A nova sanção tarifária soma-se a uma taxa separada de 25% imposta aos bens brasileiros na semana anterior, justificada pelos Estados Unidos como resposta a supostas práticas desleais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já declarou abertura para o diálogo, mas alertou que o país redirecionará ativamente seus esforços para a abertura de novos mercados caso as barreiras comerciais continuem a inviabilizar as exportações nacionais. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República publicou nota oficial classificando a imposição como arbitrária e carente de base legal interna sólida.O acionamento da OMC e as contradições diplomáticas levantadas pelo BrasilO Ministério do Trabalho e Emprego brasileiro relatou ter fornecido vasta documentação a Washington sobre suas políticas internas de combate ao trabalho escravo contemporâneo. O governo ressalta sua posição histórica como signatário de 66 convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT), englobando todos os quatro instrumentos vigentes sobre trabalho forçado. Em forte contraste, os Estados Unidos ratificaram apenas dez destas convenções, sendo somente uma relacionada ao tema. Na nota, o Brasil destacou a amplitude de suas políticas, as quais tipificam criminalmente jornadas exaustivas e condições degradantes, além de manter um cadastro público de empregadores infratores. Em resposta definitiva às ações que considera puramente protecionistas, o Brasil confirmou o acionamento imediato dos instrumentos de retaliação previstos em sua Lei de Reciprocidade e a submissão formal de uma queixa ao mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).