Mercosul e União Europeia assinam acordo histórico após 26 anos de negociações em meio ...
Economia e Comércio — América do Sul
Após 26 anos de negociações, Mercosul e União Europeia assinam em Assunção acordo de associação que cria mercado integrado de mais de 700 milhões de pessoas....
O Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a União Europeia assinaram neste sábado, 17 de janeiro, em Assunção, no Paraguai, um acordo de associação histórica que cria um mercado integrado por mais de 700 milhões de pessoas e representa um dos maiores acordos comerciais já firmados no mundo. A cerimônia, realizada na sede do Banco Central do Paraguai, contou com a presença dos presidentes da Argentina, Javier Milei, do Paraguai, Santiago Peña, e do Uruguai, Luis Lacalle Pou, além da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa. O Brasil foi representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, uma vez que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva optou por não comparecer ao evento, permanecendo em Brasília para agendas internas. O acordo, negociado ao longo de 26 anos, prevê a eliminação gradual de tarifas sobre milhares de produtos, facilitação de investimentos e ampliação do acesso a setores estratégicos como indústria, agricultura e serviços.Após a assinatura, as autoridades concederam declarações à imprensa exaltando o significado do momento. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que "escolhemos o comércio justo em vez das tarifas", numa referência indireta às crescentes tensões comerciais globais e às ameaças protecionistas vindas de Washington. O presidente paraguaio Santiago Peña celebrou o acordo como "um momento histórico para a integração regional" e agradeceu aos negociadores que trabalharam nas últimas duas décadas e meia para tornar o tratado possível, destacando o papel do Paraguai como anfitrião da cúpula. O chanceler brasileiro Mauro Vieira, em nome do governo brasileiro, reafirmou o compromisso do Brasil com a implementação do acordo e destacou a importância estratégica da parceria para a diversificação dos parceiros comerciais do país.A ausência do presidente Lula na cerimônia gerou especulações nos meios diplomáticos e na imprensa internacional. Na véspera, Lula havia recebido no Rio de Janeiro os líderes europeus Ursula von der Leyen e António Costa, num encontro descrito por diplomatas brasileiros como de "maior peso político" do que o evento protocolar em Assunção. No entanto, a decisão de não comparecer à capital paraguaia foi interpretada por alguns analistas como um sinal de desconforto brasileiro com o protagonismo do Paraguai na presidência rotativa do bloco ou como uma tentativa de Lula de evitar ser ofuscado por Milei em um momento de tensões bilaterais entre Brasil e Argentina. O governo brasileiro, por sua vez, minimizou a ausência, reiterando que a presença do chanceler Mauro Vieira era suficiente para representar o país no ato solene.A cerimônia em Assunção ocorreu sob o espectro das recentes ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas a países que não apoiarem seus planos de aquisição da Groenlândia, o que deu à assinatura do acordo um caráter adicional de defesa do comércio multilateral e da cooperação baseada em regras. Von der Leyen não mencionou diretamente Trump em seu discurso, mas a mensagem foi clara: enquanto potências individuais recorrem a medidas unilaterais e coercitivas, União Europeia e Mercosul apostam na integração econômica e no diálogo como caminhos para a prosperidade compartilhada. O presidente argentino Javier Milei, que tem adotado uma postura mais alinhada a Washington em questões geopolíticas, como a crise na Venezuela, manteve um tom discreto durante a cerimônia, limitando-se a manifestar apoio ao acordo sem fazer referências às tensões com os Estados Unidos.Apesar da celebração por governos e setores industriais, o acordo ainda enfrenta resistência significativa na Europa e, em menor medida, na América do Sul. Cerca de 150 membros do Parlamento Europeu já sinalizaram possíveis ações judiciais ou iniciativas para bloquear ou atrasar a ratificação do tratado, principalmente devido a preocupações de agricultores europeus com a concorrência de produtos sul-americanos, que consideram mais baratos e produzidos com padrões ambientais e trabalhistas menos rigorosos. Agricultores franceses, por exemplo, protestaram em Paris ao longo da semana contra o que classificam como concorrência desleal. O governo francês, um dos mais críticos ao acordo dentro da União Europeia, já anunciou que buscará garantir mecanismos de salvaguarda para proteger setores agrícolas considerados vulneráveis.Para evitar que o processo de implementação estagne enquanto as disputas políticas se arrastam, o Conselho da União Europeia estuda a aplicação provisória de capítulos relacionados ao diálogo político e à cooperação institucional, que não exigem ratificação parlamentar imediata. Esse mecanismo permitiria um avanço parcial do acordo, especialmente em áreas como cooperação científica, intercâmbio educacional e diálogo político, enquanto os debates legislativos sobre os compromissos comerciais mais sensíveis continuam nos parlamentos nacionais e no Parlamento Europeu. A expectativa é que a aplicação provisória possa começar ainda em 2026, dando sinais concretos de avanço enquanto as negociações políticas prosseguem.No lado sul-americano, as divergências também existem, embora menos profundas. Setores da indústria argentina expressaram preocupação com a possível competição de produtos europeus, especialmente nos setores automotivo e de máquinas, onde a União Europeia é altamente competitiva. O governo brasileiro, por sua vez, tem sido o principal entusiasta do tratado dentro do Mercosul, vendo na parceria com a União Europeia uma oportunidade de diversificar parceiros comerciais e reduzir a dependência do mercado chinês, que atualmente absorve cerca de um terço das exportações brasileiras. A ausência de Lula na cerimônia, no entanto, levanta questões sobre o grau de prioridade que o governo brasileiro realmente atribui ao acordo, ou se trata-se apenas de uma questão de estilo diplomático.A assinatura do acordo ocorre num momento de transformações profundas na geopolítica global, com o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos reavivando tensões comerciais e questionamentos sobre a ordem multilateral construída após a Segunda Guerra Mundial. Para a União Europeia, o pacto com o Mercosul representa não apenas uma oportunidade econômica, mas também um movimento estratégico para fortalecer laços com regiões que compartilham valores como democracia, estado de direito e comércio baseado em regras. Para os países sul-americanos, é uma chance de se inserirem de forma mais competitiva nas cadeias globais de valor e de atraírem investimentos europeus em infraestrutura e tecnologia, embora a ausência do principal líder da região na cerimônia de assinatura possa ser interpretada como um sinal de que o entusiasmo não é unânime.O caminho a partir de agora, no entanto, é longo e incerto. A implementação será gradual, e seus efeitos práticos devem ser sentidos ao longo de vários anos, à medida que as barreiras comerciais forem sendo eliminadas e os novos fluxos de investimento se consolidarem. Enquanto isso, governos e setores produtivos de ambos os lados do Atlântico terão que trabalhar para construir consensos políticos que permitam a plena ratificação do tratado e para mitigar os impactos negativos sobre setores mais vulneráveis à concorrência externa. A assinatura em Assunção é apenas o primeiro passo de uma longa jornada, mas, como lembraram os líderes presentes, é um passo fundamental na direção certa, mesmo que o principal líder do principal país do bloco sul-americano tenha optado por assisti-lo de longe.