Príncipe exilado Reza Pahlavi convoca comunidade internacional para ajudar a derrubar r...

Segurança e Paz — Oriente Médio

Em entrevista coletiva em Washington, o príncipe exilado Reza Pahlavi pede que comunidade internacional ajude manifestantes a derrubar regime iraniano, com "...

O príncipe herdeiro exilado do Irã, Reza Pahlavi, fez um apelo contundente nesta sexta-feira, 16 de janeiro, para que a comunidade internacional intervenha em apoio aos manifestantes que há três semanas desafiam o regime dos aiatolás nas ruas de dezenas de cidades iranianas. Em entrevista coletiva em Washington, Pahlavi afirmou estar confiante de que "a República Islâmica cairá - não se saberá quando, mas cairá" e pediu que potências estrangeiras realizem "ataques cirúrgicos" contra a liderança da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), o que, segundo ele, "facilitará nossa tarefa e evitará mais perdas de vidas". O líder da oposição iraniana no exílio também exigiu a expulsão de diplomatas iranianos, a libertação imediata de todos os presos políticos e a disponibilização de internet via satélite Starlink para furar o bloqueio de comunicações imposto pelo regime.As declarações de Pahlavi ocorrem num momento em que organizações de direitos humanos contabilizam um número alarmante de vítimas da repressão. A agência HRANA (Human Rights Activists News Agency), com sede nos Estados Unidos, confirmou pelo menos 2.677 mortos desde o início das manifestações em 28 de dezembro, com mais 1.600 óbitos sob investigação. Cerca de 19 mil manifestantes foram presos pelas forças de segurança, que têm feito uso generalizado de munição letal contra a população civil. O regime impôs um blackout total da internet desde 8 de janeiro, dificultando a organização dos protestos e a comunicação com o exterior, mas imagens e relatos continuam vazando por meio de redes de ativistas e do serviço de internet via satélite Starlink, cujo uso foi oficialmente proibido pelo governo iraniano.Os protestos tiveram início após lojistas da capital Teerã entrarem em greve contra o aumento do custo de vida e a desvalorização acelerada da moeda local, o rial, que perdeu mais de 80% de seu valor nos últimos meses. Rapidamente, porém, o movimento se espalhou por todo o país e assumiu um caráter político explícito, com multidões passando a clamar contra o establishment clerical e particularmente contra o líder supremo Ali Khamenei. Os slogans entoados pelos manifestantes incluem "Morte ao ditador" e "Seyyed Ali [Khamenei] cairá este ano", num desafio direto à autoridade máxima do regime, no poder desde 1989.Reza Pahlavi, que vive nos Estados Unidos desde a Revolução Islâmica de 1979, emergiu como uma figura proeminente na fragmentada oposição iraniana e tem reiteradamente encorajado a escalada dos protestos. Em sua coletiva, ele afirmou que setores das forças de segurança iranianas se recusaram a participar da repressão e que o regime teria trazido combatentes de milícias estrangeiras para sufocar as manifestações. Sem confirmar ou negar relatos de que teria mantido conversas com altos funcionários do governo americano, Pahlavi declarou acreditar que o presidente Donald Trump "é um homem de palavra e, em última análise, estará ao lado do povo iraniano".O presidente Trump tem adotado uma postura cada vez mais agressiva em relação ao Irã nas últimas semanas. No domingo, 11 de janeiro, Trump ameaçou tomar "medidas muito fortes" caso o regime começasse a executar manifestantes, e na terça-feira afirmou ter sido informado de que "a matança parou", sem no entanto descartar uma ação militar contra o país. Em resposta, o porta-voz do parlamento iraniano advertiu que, se os EUA atacassem, tanto Israel quanto centros militares e de navegação americanos na região se tornariam "alvos legítimos". Como medida de precaução, Estados Unidos e Reino Unido reduziram o número de militares na base aérea de Al-Udeid, no Catar, informaram fontes oficiais à rede CBS News.Em sua coletiva, Pahlavi apresentou um plano para a criação de uma nova constituição no Irã baseada em princípios como a integridade territorial, a separação entre religião e Estado, as liberdades individuais e o direito do povo iraniano de decidir a forma de governo democrático que deseja. Questionado sobre sua ambição de liderar o país, respondeu que "cabe ao povo iraniano decidir", mas afirmou acreditar que pode liderar e conta com o apoio popular. "Estou tentando ajudá-los a se libertar", declarou.Moradores de quatro cidades - Teerã, Karaj, Isfahan e Sanandaj - disseram à BBC nesta sexta-feira que não havia protestos ocorrendo, embora forças de segurança ainda estivessem presentes nas ruas e praças públicas. A calmaria aparente pode indicar tanto uma pausa tática dos manifestantes quanto o sucesso temporário da repressão em conter as mobilizações, mas analistas ouvidos pela agência Reuters avaliam que o movimento de contestação está longe de ser totalmente suprimido, dada a profundidade da crise econômica e o descontentamento generalizado com o regime.A comunidade internacional observa com crescente apreensão a escalada da crise. Na quinta-feira, 15 de janeiro, os embaixadores dos Estados Unidos e do Irã trocaram acusações no Conselho de Segurança da ONU, enquanto autoridades da organização e da União Europeia pediram moderação para evitar mais violência ou uma escalada regional. A China e a Rússia, tradicionais aliados de Teerã, têm defendido uma solução diplomática e manifestado preocupação com a possibilidade de intervenção externa, aprofundando as divisões no Conselho sobre como responder à crise.Para Reza Pahlavi, a comunidade internacional não pode mais se omitir. "O povo iraniano está agindo de forma decisiva no terreno. É hora de a comunidade internacional se juntar a eles plenamente", afirmou. "Com ou sem a ajuda do mundo, o regime cairá. Cairá mais cedo e mais vidas serão salvas se o mundo transformar suas palavras em ação." O apelo do príncipe exilado encontra eco em setores da sociedade iraniana que há décadas aguardam uma oportunidade para derrubar o regime dos aiatolás, mas a memória histórica da intervenção estrangeira no Irã - incluindo o papel da CIA no golpe de 1953 que restaurou o xá Reza Pahlavi, pai do atual pretendente ao trono - adiciona uma camada de complexidade a qualquer movimento que envolva potências ocidentais, num país onde o nacionalismo e a desconfiança em relação a potências externas são sentimentos profundamente enraizados.