ONU conclui a semana de Debate Geral da 81ª Assembleia sob pressão por reformas globais
Governança Global — Global
A semana de diplomacia intensiva em Nova York foi marcada por divergências sobre segurança, saúde e arquitetura financeira
O encerramento do Debate Geral da Assembleia GeralA Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) encerrou, no dia 28 de setembro de 2026, a sua semana de Debate Geral em Nova York, marcando o clímax da 81ª sessão anual. Este evento, reconhecido como a principal plataforma diplomática do planeta, permitiu que líderes de quase todos os países apresentassem suas visões sobre o estado atual do mundo e as prioridades para a cooperação internacional. Durante a semana, a necessidade de restaurar a confiança no multilateralismo foi tema recorrente dos discursos proferidos, e uma ausência notável foi a do Presidente chinês, Xi Jinping, que não compareceu ao evento apesar de estar nos Estados Unidos para uma cúpula bilateral com Donald Trump.Reformas na governança global e multilateralismoO debate sobre a reforma da governança global dominou as sessões, com diversos Estados-membros exigindo uma atualização urgente nas estruturas do Conselho de Segurança, cujo modelo ainda não reflete a realidade geopolítica do século XXI, tornando a instituição menos eficaz diante de ameaças coletivas. O consenso emergente sugere a criação de mecanismos mais ágeis para a tomada de decisões, embora os países permaneçam divididos sobre a amplitude e a forma dessas alterações institucionais no sistema das Nações Unidas. No último dia de debates, líderes africanos aproveitaram a ocasião para exercer uma pressão sem precedentes por um papel mais robusto para o continente nas instâncias decisórias da organização, argumentando que a desigualdade na influência política das instituições globais reflete a disparidade entre o peso demográfico das nações em desenvolvimento e o poder decisório concentrado nas mãos de poucos países.Segurança internacional e conflitos regionaisA questão da segurança e da paz ocupou espaço central nas intervenções, com o foco voltado para a escalada dos conflitos na Ucrânia, a situação humanitária na Palestina e a instabilidade no Irã. Diplomatas manifestaram preocupação com a ausência de um mecanismo robusto para a mediação de conflitos regionais, o que agrava o risco de uma conflagração de proporções maiores, afetando diretamente a estabilidade econômica global. O clima tenso foi exemplificado pela saída de dezenas de delegados do plenário em protesto durante o discurso do Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que reiterou a continuidade das operações militares contra o grupo Hamas na Palestina e o governo do Irã, gerando, em resposta, um movimento imediato das outras delegações de defesa urgente da Carta da ONU, do Direito Internacional e da proteção obrigatória de civis e pela resolução pacífica de disputas em curso.Desenvolvimento, IA e segurança sanitáriaOutra agenda debatida foi a do desenvolvimento e da redução das desigualdades, onde os debates focaram na urgência de reformar a arquitetura financeira internacional para que países em desenvolvimento tenham maior capacidade de investimento em metas sociais e climáticas. Paralelamente, o debate sobre a inteligência artificial revelou visões divergentes sobre o estabelecimento de normas globais. Enquanto o Secretário-Geral António Guterres e a União Europeia defenderam padrões rígidos de segurança, os Estados Unidos sustentaram que o setor não deveria ser limitado por regulações internacionais, defendendo o controle soberano sobre sua própria inovação tecnológica. A tentativa de consolidar uma declaração sobre a prontidão contra futuras pandemias também enfrentou obstáculos significativos, mostrando que a busca pela equidade no acesso a vacinas e tratamentos ainda colidem com interesses nacionais estratégicos.Objeções dos Estados Unidos e de outros países bloquearam o consenso ao rejeitar a declaração, empurrando o tema para uma possível votação na Assembleia Geral até dezembro. O conjunto dessas discussões reflete a necessidade urgente de normas globais capazes de mitigar riscos, evitando que a lacuna de recursos financeiros e a desigualdade tecnológica acelerem ainda mais o abismo socioeconômico entre as nações.A perspectiva brasileira e o futuro da ONUO Brasil aproveitou a tribuna para reiterar a sua defesa de um sistema internacional pautado pelo diálogo, pela inclusão social e pela sustentabilidade, posicionando-se como um facilitador de entendimentos em um cenário de polarização. A delegação brasileira também destacou que a desigualdade estrutural continua moldando os debates, dado que os países que enfrentam os maiores encargos de dívida, a maior vulnerabilidade climática e os mais severos limites fiscais são, paradoxalmente, aqueles que detêm a menor influência sobre as instituições que desenham a economia global. Com isso, o fortalecimento da ONU depende de um engajamento genuíno com o Sul Global e da reforma das instituições financeiras que regem a economia mundial. Os desafios discutidos ao longo desta semana mostraram que a preservação da legitimidade do sistema multilateral será o teste definitivo para o novo Secretário-Geral na próxima década. O processo de seleção do sucessor de António Guterres, cujo mandato se encerra ao final deste ano, passará a ser o foco central das articulações diplomáticas nesses últimos meses de 2026, culminando na nomeação pelo Conselho de Segurança e posterior eleição pela Assembleia Geral para um mandato de cinco anos, renovável por igual período.