Tráfico internacional redireciona rota de cocaína para o Amapá e exige cooperação entre...
Segurança e Paz — América Latina
O uso do porto de Santana rumo ao mercado europeu vem desafiando a fiscalização do Brasil e aliados e pede inteligência integrada com a Europa.
Nova rota na AmazôniaO estado do Amapá tornou-se estratégico no escoamento internacional de cocaína produzida na Colômbia, no Peru e na Bolívia com destino ao continente europeu, conforme análises divulgadas nesta quarta-feira, 4 de novembro de 2026. O redirecionamento das rotas do tráfico ocorre devido à expansão de facções criminosas na região amazônica e ao crescimento da demanda pela droga na Europa nos últimos 15 anos. Os dados divulgados pelo Observatório de Economias Ilícitas na Bacia Amazônica, vinculado à Iniciativa Global Contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), mostram que, desde a década de 1980, produtores utilizavam os rios da Amazônia brasileira para transportar entorpecentes até Manaus, no Amazonas. Nos anos recentes, porém, grupos como o Comando Vermelho ampliaram sua presença territorial para conectar diretamente a produção andina aos mercados externos. Essa reconfiguração do crime organizado na região norte do país decorre diretamente de mudanças na vigilância portuária brasileira.Logística na foz do AmazonasO rigor na fiscalização dos portos de Belém, no Pará, motivou o deslocamento das quadrilhas internacionais para os municípios amapaenses de Macapá e Santana. Localizada na foz do rio Amazonas, a cidade de Santana oferece um porto internacional e intenso fluxo de navios de grande porte, o que facilita o acoplamento ilegal de cargas de cocaína em contêineres comerciais. Enquanto os lucros financeiros do narcotráfico abastecem redes no exterior, os municípios locais sofrem os impactos diretos da atividade ilegal, pois o avanço das facções eleva os índices de violência urbana e retira o controle territorial das comunidades tradicionais amazônicas. Diante do caráter transnacional dessa cadeia logística, a contenção do problema ultrapassa a capacidade isolada das forças de segurança nacionais.Limites da cooperação europeiaO enfrentamento efetivo ao tráfico internacional na Amazônia depende do compartilhamento contínuo de inteligência e de operações coordenadas entre os países sul-americanos e europeus. Atualmente, a União Europeia (UE) mantém programas de apoio regional voltados à troca de informações estratégicas e à repressão de ilícitos transfronteiriços. Apesar da existência formal dessas iniciativas com o bloco europeu, promotores, procuradores e agentes policiais relatam baixa efetividade prática e pouca cooperação internacional na rotina operacional. A ausência de integração diária entre as agências de segurança e de mecanismos ágeis de investigação conjunta dificulta o rastreamento das cargas que saem da foz do Amazonas rumo aos portos da Europa, de modo que a repressão fica restrita a apreensões pontuais que não desarticulam o financiamento das organizações criminosas.Modelo entre Brasil e FrançaExperiências bilaterais recentes na própria fronteira amazônica demonstram caminhos viáveis para superar esses entraves burocráticos: o acordo de cooperação fronteiriça firmado entre o Brasil e a França é uma referência para ampliar o combate ao narcotráfico no norte do país, pois, na divisa entre o estado do Amapá e o território ultramarino da Guiana Francesa, os dois governos já executam protocolos conjuntos que preveem o intercâmbio direto de dados e ações policiais sincronizadas. Atualmente voltada à repressão do garimpo ilegal, essa parceria permite que as polícias brasileira e francesa atuem de forma simultânea nos dois lados do rio Oiapoque, modelo que pode ser replicado no enfrentamento aos carregamentos de cocaína. A ampliação desse formato bilateral para outros parceiros internacionais fortaleceria o controle marítimo e fluvial na foz do Amazonas. A contenção efetiva das rotas amazônicas dependerá, portanto, da capacidade dos governos sul-americanos e europeus de transformarem essa experiência bilateral na fronteira em um protocolo diário nos grandes portos da região.