EUA e Europa Enfrentam Crise na MSC

Segurança e Paz — Global

Abertura da 62ª Conferência de Segurança de Munique é marcada por tensão transatlântica; secretário de Estado Rubio viaja para Alemanha com delegação america...

A 62ª Conferência de Segurança de Munique teve início nesta quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, no Hotel Bayerischer Hof, na capital bávara da Alemanha, em um contexto marcado por uma das maiores tensões na aliança transatlântica desde o fim da Guerra Fria. O secretário de Estado americano Marco Rubio embarcou em direção à Alemanha a partir da Base Aérea de Andrews, em Washington, na mesma quinta-feira, liderando uma grande delegação dos Estados Unidos — a maior enviada pelo governo Trump ao evento —, enquanto líderes e ministros europeus chegavam a Munique carregando meses de inquietação acumulada sobre a direção da política externa americana.O evento deste ano, que se estende até 15 de fevereiro, opera sob o tema simbólico extraído do Relatório de Segurança de Munique 2026 recém-publicado: o mundo teria ingressado num período de "política do trator demolidor" — em referência às ações da atual administração americana. A conferência, fundada em 1963 pelo publicista conservador e resistente à Segunda Guerra Mundial Ewald-Heinrich von Kleist, é amplamente conhecida como o mais importante fórum anual de segurança internacional, reunindo chefes de Estado e de governo, ministros das Relações Exteriores e da Defesa, e altos representantes de organizações internacionais.Nas horas que antecederam a abertura formal da conferência, o subsecretário de Defesa americano para política, Elbridge Colby — o segundo americano mais observado em Munique segundo analistas da Foreign Policy — discursou diante de ministros de Defesa da OTAN na sede da aliança em Bruxelas, na mesma quinta-feira, 12 de fevereiro, delineando os termos para o que descreveu como uma "aliança transatlântica renovada". Colby, arquiteto da doutrina de defesa centrada no Indo-Pacífico, apresentou condições para a manutenção do compromisso americano com a segurança europeia: fundamentalmente, que os aliados da OTAN aumentem seus gastos em defesa para atingir, ou superar, a meta de 5% do PIB proposta pelo presidente Trump.A chegada de Rubio foi amplamente antecipada como um termômetro crucial do estado da relação Washington-Europa. Um ano antes, o vice-presidente J.D. Vance havia chocado os presentes com um discurso em que descreveu a maior ameaça à Europa como vindo "de dentro" — em referência a censuras a discursos e ao multiculturalismo —, provocando reação contundente de aliados. Desde então, a relação foi sacudida por novos episódios de atrito: Trump reivindicou o controle americano sobre a Groenlândia, território semiautônomo da Dinamarca membro da OTAN, chegando a ameaçar o uso de força econômica e militar para obter o objetivo; a administração americana encerrou o fornecimento direto de assistência militar à Ucrânia; e tarifas foram ameaçadas contra aliados europeus.O Washington Post, em matéria publicada no próprio dia 12 de fevereiro, descreveu a Europa como aguardando a chegada de Rubio com uma mistura de cautela e esperança: cautela diante da continuidade previsível das prioridades americanas, esperança de que o tom seja mais conciliatório do que o do vice-presidente Vance na conferência anterior. O jornal destacou que Rubio liderava a maior delegação americana em Munique em anos, sinal interpretado como de engajamento.O Índice de Segurança de Munique 2026, publicado às vésperas da conferência, ofereceu dados eloquentes sobre o estado do relacionamento transatlântico. O levantamento constatou que cidadãos em praticamente todos os países do G7 — com exceção do Japão e do Reino Unido — passaram a perceber os Estados Unidos como um risco mais grave do que no ano anterior, continuando uma tendência que se acelerou após a eleição de Trump em novembro de 2024. A percepção dos riscos associados a guerras comerciais atingiu o nível mais alto já registrado no índice, sendo classificada mais alto do que nunca nos países do G7 e nos países BRICS.Paralelamente, as discussões sobre a Ucrânia dominavam os bastidores do evento já na abertura. O presidente da Letônia, Edgars Rinkevics, deu o tom da frustração europeia ao afirmar que simplesmente não conseguia imaginar que haveria um acordo de paz em 2026. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, que se preparava para discursar nos dias seguintes, chegou a Munique num momento em que negociações de cessar-fogo intermediadas pelos EUA estavam em curso em Genebra — mas com perspectivas ainda muito incertas. Zelensky apelaria aos europeus para que preenchessem o vazio deixado pelo fim do apoio militar americano direto à Ucrânia.Na abertura da conferência, o chanceler alemão Friedrich Merz, eleito em fevereiro de 2025, advertiu que a ordem global liderada pelos EUA havia chegado ao fim e convocou a Europa à força e à solidariedade — mas sem deixar de apelar por uma reparação das relações com Washington. A questão da Groenlândia e as ameaças americanas sobre o território dinamarquês pairavam sobre o evento, embora não estivessem na agenda formal. Fontes americanas indicavam que negociações sobre o tema avançavam em paralelo, o que poderia oferecer um alívio de curto prazo para a aliança.