Brasil, UE, Canadá e Quênia lançam iniciativa P4M para reformar a ONU
Governança Global — Global
Iniciativa busca fortalecer cooperação e promover mudanças estruturais nas instituições globais.
Natureza e objetivo da iniciativa P4MO Brasil, a União Europeia (UE), o Canadá e o Quênia oficializaram a criação da iniciativa Parceiros pelo Multilateralismo (P4M). O anúncio, consolidado em um manifesto divulgado no jornal britânico Financial Times, ocorre a poucos dias da abertura dos debates de alto nível da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. A P4M estabelece-se como uma plataforma de coalizão flexível, concebida para unir países de diversas regiões e alinhamentos políticos em torno de uma agenda comum de reforma institucional. Longe de pretender a criação de um novo bloco exclusivo ou de expandir a burocracia internacional, o grupo almeja atuar como um mecanismo prático de coordenação, capaz de elevar o diálogo político e transformar compromissos compartilhados em reformas efetivas para a ONU e outros organismos multilaterais.Diagnóstico, desafios globais e a necessidade de cooperaçãoO lançamento da P4M ocorre em um momento de convergência de crises que sobrecarregam a ordem global contemporânea. Os membros entendem que a emergência climática, marcada pela perda acelerada de biodiversidade, o desenvolvimento desregulado da inteligência artificial, a ameaça constante de novas pandemias e as vulnerabilidades críticas nas cadeias globais de suprimentos exigem soluções coletivas que superam as capacidades de ação isolada de qualquer Estado. Este cenário de fragilidade é agravado por uma perigosa fragmentação geopolítica, evidenciada pelos 65 conflitos armados entre Estados registrados em 2025, o maior volume contabilizado desde 1946. Além disso, os gastos militares globais alcançaram o nível recorde de 2,9 trilhões de dólares, enquanto o comércio mundial, embora em expansão, enfrenta graves riscos decorrentes da politização de rotas comerciais e de choques financeiros, tornando a cooperação uma necessidade pragmática para a segurança internacional.Posicionamentos do grupo sobre direito e economiaOs signatários da P4M posicionaram-se explicitamente em defesa da Carta das Nações Unidas como pilar fundamental da coexistência entre as nações, destacando que o respeito aos princípios de soberania nacional, integridade territorial e a proibição do uso ou ameaça de força são inegociáveis para a estabilidade global. Adicionalmente, o grupo manifesta sua preocupação direta com o uso da interdependência econômica como ferramenta de coerção política, declarando que medidas protecionistas e sanções desenfreadas comprometem o desenvolvimento inclusivo. Os membros também reiteraram a importância vital do direito humanitário internacional e da proteção dos direitos humanos, bem como defenderam uma arquitetura financeira global que seja mais equitativa, resiliente e capaz de mitigar as desigualdades estruturais que persistem entre e dentro dos países.Posicionamento do Brasil e horizontes na ONUPara o governo brasileiro, a adesão à iniciativa P4M reflete uma peça central de sua política externa atual, que busca imprimir maior legitimidade e eficácia aos organismos internacionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem reiterado em diversos fóruns a necessidade de reformar o Conselho de Segurança da ONU, garantindo uma representatividade que reflita a realidade geopolítica do século 21, especialmente com a inclusão de nações do Sul Global. Com a chegada da delegação brasileira a Nova York, a pauta da reforma das instituições multilaterais deve ganhar tração nas reuniões bilaterais e multilaterais previstas para a semana. Esta articulação posiciona o Brasil como um interlocutor chave, empenhado em construir pontes diplomáticas para que o sistema de governança global retome sua capacidade de entregar resultados concretos frente aos dilemas que ameaçam a paz e o desenvolvimento sustentável.