Tensão no Mercosul: Lula não irá a Assunção para assinatura do acordo UE-Mercosul

Economia e Comércio — América do Sul

Presidente Lula não comparecerá à cerimônia de assinatura do acordo UE-Mercosul em Assunção, sendo representado pelo chanceler Mauro Vieira. Em vez disso, re...

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não comparecerá à cerimônia de assinatura do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia marcada para este sábado, 17 de janeiro, em Assunção, no Paraguai, informou o Palácio do Planalto nesta sexta-feira, 16 de janeiro. O Brasil será representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, enquanto os presidentes da Argentina, Javier Milei, do Paraguai, Santiago Peña, e do Uruguai, Luis Lacalle Pou, deverão estar presentes no evento. A decisão de Lula gerou desconforto entre os sócios do bloco e expôs tensões diplomáticas internas no Mercosul em um momento considerado crucial para o futuro do acordo, negociado por mais de 25 anos.Em vez de viajar a Assunção, Lula recebeu nesta sexta-feira, no Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa. Diplomatas brasileiros descreveram o encontro como portador de "maior peso político" do que a cerimônia protocolar de assinatura, sinalizando a intenção do governo brasileiro de reforçar seu papel como principal garantidor do acordo dentro do Mercosul. Após a reunião, as autoridades concederam uma declaração conjunta à imprensa, na qual destacaram a importância estratégica da parceria e os próximos passos para a implementação do tratado.A decisão de Lula foi recebida com críticas por parte do governo argentino. O jornal La Nación reportou que altos funcionários da administração de Javier Milei consideraram a atitude do presidente brasileiro como "uma falta de respeito com seus parceiros", acusando Lula de ter "montado uma cúpula paralela um dia antes" da assinatura oficial. As relações entre Brasil e Argentina já estavam deterioradas nos últimos dias devido às posições divergentes em relação ao envolvimento da administração Trump na Venezuela, com Lula adotando uma postura mais cautelosa enquanto Milei alinhava-se mais estreitamente a Washington.O governo brasileiro minimizou a ausência de Lula, argumentando que a cerimônia de Assunção foi originalmente concebida como um evento em nível ministerial e elevada a encontro presidencial em cima da hora pelo Paraguai, que exerce a presidência rotativa do bloco. Assessores do Planalto destacaram que a reunião no Rio de Janeiro com os principais líderes da União Europeia demonstra o compromisso brasileiro com o acordo e que a presença do chanceler Mauro Vieira na capital paraguaia é suficiente para representar o país no ato solene.O acordo UE-Mercosul, aprovado pelo bloco europeu na semana passada, criará uma zona de livre comércio de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) combinado de US$ 22 trilhões, segundo estimativas do governo brasileiro. Após mais de duas décadas de negociações, o tratado visa eliminar ou reduzir tarifas sobre milhares de produtos, facilitar investimentos e ampliar o acesso a setores-chave como indústria, agricultura e serviços, conferindo-lhe um peso econômico e geopolítico significativo no cenário internacional.Apesar da celebração por governos e setores industriais, o acordo ainda enfrenta resistência significativa na Europa. Cerca de 150 membros do Parlamento Europeu já sinalizaram possíveis ações judiciais ou iniciativas para bloquear ou atrasar a aprovação. Agricultores franceses, por exemplo, protestaram em Paris nesta semana contra o que consideram concorrência desleal de produtos sul-americanos mais baratos. Para evitar que o processo de implementação estagne, o Conselho da União Europeia estuda a aplicação provisória de capítulos relacionados ao diálogo político e à cooperação institucional, que não exigem ratificação parlamentar imediata, permitindo um avanço parcial do acordo enquanto os debates legislativos sobre os compromissos comerciais continuam.O encontro no Rio também serviu para que Lula, von der Leyen e Costa discutissem os próximos passos para a implementação do acordo e os desafios pela frente. Na terça-feira, 13 de janeiro, Lula já havia conversado com o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, e os dois concordaram em trabalhar juntos para implementar o acordo de forma "rápida e eficiente", para que as populações possam ver resultados concretos da parceria. A implementação será gradual, e seus efeitos práticos devem ser sentidos ao longo de vários anos, à medida que as barreiras comerciais forem sendo eliminadas e os novos fluxos de investimento se consolidarem.A decisão de Lula de priorizar o encontro no Rio em detrimento da cerimônia em Assunção reflete a complexa dinâmica política do Mercosul e as relações bilaterais no bloco. Enquanto Brasil e Argentina, as duas maiores economias do bloco, divergem em questões fundamentais, a unidade do Mercosul se torna mais difícil de preservar. O Paraguai, como anfitrião da cúpula, busca capitalizar politicamente o momento, mas a ausência de Lula pode ofuscar o evento e desviar a atenção das conquistas do acordo para as disputas internas do bloco. Resta saber se a "cúpula paralela" no Rio fortalecerá a posição brasileira ou aprofundará as divisões no Mercosul em um momento em que a unidade é mais necessária.