Araghchi Encontra Grossi em Genebra
Segurança e Paz — Oriente Médio
Chanceler iraniano reúne-se com diretor-geral da AIEA em Genebra para discussões técnicas nucleares profundas às vésperas da segunda rodada de negociações in...
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, reuniu-se nesta segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026, com o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Mariano Grossi, na cidade de Genebra, em uma série de discussões técnicas aprofundadas sobre o programa nuclear iraniano realizadas às vésperas da segunda rodada de negociações indiretas entre o Irã e os Estados Unidos, agendada para a manhã de terça-feira, 17 de fevereiro, na mesma cidade. A reunião entre Araghchi e Grossi foi confirmada pelo Ministério das Relações Exteriores iraniano, pelo próprio Grossi em publicação na rede social X e por múltiplos veículos internacionais, incluindo a Al Jazeera e agências como a AP e a Reuters.Araghchi chegou a Genebra acompanhado de uma delegação de especialistas nucleares iranianos, cuja presença, segundo o chanceler, visava tornar possível "discussões técnicas profundas" com Grossi e com os representantes omanitas que mediavam os contatos preparatórios com a delegação americana. Em publicação no X antes da reunião, Araghchi deu o tom de sua postura: "Estou em Genebra com ideias reais para alcançar um acordo justo e equitativo. O que não está na mesa: submissão perante ameaças." A frase, lida por analistas como um sinal direto ao governo americano — que havia enviado dois grupos de ataque de porta-aviões para o Oriente Médio enquanto negociava —, condensava a posição pública de Teerã: disposição para negociar combinada com rejeição explícita à coerção.Durante o encontro com Grossi, as discussões centraram-se em questões técnicas relacionadas à cooperação do Irã com a AIEA no âmbito das obrigações de salvaguardas nucleares, bem como à lei aprovada pelo parlamento iraniano em junho de 2025 que havia suspendido parcialmente a cooperação bilateral entre Teerã e a agência. A reunião era particularmente sensível porque a AIEA, desde os ataques militares americano-israelenses em junho de 2025 contra instalações nucleares iranianas, havia sido impedida de verificar o status atual do estoque de urânio enriquecido a 60% do Irã — estimado em 440 quilogramas pela própria agência e suficiente, segundo avaliações do próprio Grossi, para a produção de até dez artefatos nucleares se o material fosse levado ao nível de pureza de 90%.Grossi publicou em sua conta do X, após a conclusão do encontro com Araghchi, que havia realizado "discussões técnicas profundas" com o chanceler iraniano "em preparação para as importantes negociações agendadas para amanhã em Genebra." O tom cuidadoso da publicação — que se abstinha de revelar o conteúdo das discussões ou indicar se havia progresso concreto — refletia a delicadeza de seu papel: a AIEA era ao mesmo tempo um instrumento técnico de verificação e um ator político que precisava manter credibilidade junto às partes em conflito.O encontro ocorreu num contexto de tensões crônicas entre Teerã e a AIEA. Autoridades iranianas, incluindo membros do parlamento de linha dura, haviam acusado o próprio Grossi de parcialidade em favor de Israel e dos EUA, sugerindo que ele havia vazado informações sobre instalações nucleares iranianas que teriam subsidiado os ataques de junho de 2025. Deputados de linha dura da facção Paydari (Steadfastness) alertaram o chefe do Conselho de Segurança Nacional iraniano, Ali Larijani, que havia sucedido ao negociador nuclear mais experiente nas consultas preliminares, de não conceder acesso de inspeção à AIEA antes de garantias sobre integridade territorial e segurança de cientistas nucleares. O contexto deixava claro que a reunião Araghchi-Grossi era tanto técnica quanto altamente política.O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baghaei, descreveu naquela mesma segunda-feira que a posição americana havia se "movido em direção a uma mais realista" — uma avaliação cautelosamente positiva que, segundo analistas, refletia a leitura de Teerã de que os EUA haviam suavizado levemente sua posição inicial de exigir enriquecimento zero. Baghaei também rejeitou especulações de que Washington havia proposto a suspensão ou limitação drástica do enriquecimento de urânio como condição central, classificando tais relatos como "infundados", e reiterou que o Irã, como membro do TNP, tinha o direito garantido pelo artigo IV do tratado ao uso pacífico da energia nuclear, incluindo o enriquecimento.A delegação iraniana para as negociações de terça-feira seria composta por Araghchi — que havia publicado um artigo de opinião no The Washington Post apelando diretamente a Trump para que priorizasse a diplomacia —, acompanhado de representantes políticos, jurídicos, econômicos e técnicos nucleares, segundo o porta-voz. "Todos os especialistas necessários para expressar opiniões e tomar decisões sobre os vários aspectos de um possível entendimento estão presentes", afirmou Baghaei, sublinhando que o Irã participava com "plena preparação e seriedade". Do lado americano, Araghchi ainda esperava encontrar-se com o Ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr al-Busaidi, no dia 16, antes do início das negociações formais na terça-feira.Para o Brasil, o encontro entre Araghchi e Grossi em Genebra em 16 de fevereiro era relevante por ao menos duas razões. Primeiro, porque a AIEA — da qual o Brasil é membro — seria o principal organismo de verificação num eventual acordo nuclear, e a qualidade da cooperação iraniana com a agência determinaria em grande medida a viabilidade técnica de qualquer acordo. Segundo, porque o Brasil possui um programa nuclear próprio, com enriquecimento de urânio para fins civis em Resende, e tem histórica posição de defesa do direito ao enriquecimento pacífico — posição que converge parcialmente com a postura iraniana, tornando o caso um precedente relevante para a política nuclear brasileira.