ONU discute reforma do conselho
Governança Global — Global
G4 apresenta nova proposta em Nova York para ampliar assentos permanentes
Nesta quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026, representantes do G4 — grupo composto por Brasil, Alemanha, Índia e Japão — reuniram-se na sede das Nações Unidas, em Nova York, para protocolar uma proposta revisada de reforma do Conselho de Segurança da ONU. O documento, apresentado formalmente pelo embaixador brasileiro junto à organização, defende a expansão imediata do órgão para incluir novos membros permanentes e não permanentes, visando refletir as realidades geopolíticas do século XXI. A iniciativa ocorre em um momento de paralisia institucional, exacerbada pela incapacidade do Conselho de mediar crises recentes devido ao uso recorrente do poder de veto pelos membros atuais do P5 (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido).A proposta do G4 sugere a criação de seis novos assentos permanentes sem poder de veto imediato, sendo dois para a África, dois para a Ásia, um para a Europa Ocidental e um para a América Latina e Caribe, este último historicamente pleiteado pelo Itamaraty. Além disso, o plano prevê o aumento de quatro a cinco assentos não permanentes, elevando o total de membros do Conselho dos atuais 15 para 25 ou 26 integrantes. O governo brasileiro enfatizou que a legitimidade da ONU depende da representatividade de suas estruturas de decisão, argumentando que a configuração atual, estabelecida em 1945, é anacrônica e ineficaz para lidar com ameaças contemporâneas à paz e segurança internacionais.O contexto dessa movimentação é marcado por uma pressão crescente do Sul Global por uma governança global mais equitativa. Durante a sessão de apresentação, a diplomacia brasileira ressaltou que a manutenção do status quo favorece a fragmentação do sistema internacional e o surgimento de mecanismos paralelos de segurança. A resistência, entretanto, permanece sólida em certos blocos. O grupo "Unidos para o Consenso" (UfC), liderado por países como Itália, Paquistão, México e Argentina, manifestou oposição imediata à criação de novos assentos permanentes, defendendo em vez disso apenas a expansão das categorias não permanentes com mandatos mais longos e possibilidade de reeleição imediata.Do ponto de vista das grandes potências, a reação foi mista. Os Estados Unidos reiteraram seu apoio de princípio à entrada de Japão, Alemanha e Índia, mas mantiveram uma postura cautelosa quanto à inclusão de novos membros permanentes da região africana e latino-americana sem critérios de "contribuição sistêmica" definidos. A China, por sua vez, sinalizou que qualquer reforma deve priorizar a representação de países em desenvolvimento, mas evitou apoiar especificamente a candidatura japonesa, devido a tensões históricas e regionais. A França e o Reino Unido, que já manifestaram apoio ao G4 no passado, reforçaram a necessidade de um Conselho mais ágil, porém não indicaram pressa na votação da resolução.O impacto internacional dessa proposta é profundo, pois toca no cerne da estrutura de poder global. Especialistas indicam que o ano de 2026 pode ser um divisor de águas para o multilateralismo. Caso a proposta não avance para uma votação em Assembleia Geral com maioria de dois terços, o Brasil e seus parceiros do G4 sinalizam uma possível redução de engajamento em missões de paz da ONU, priorizando arranjos regionais. A diplomacia brasileira vê nesta janela de oportunidade a última chance de reformar o sistema por dentro antes que a ordem internacional sofra uma ruptura irreversível em direção à multipolaridade desordenada e competitiva.