Rússia bombardeia Kyiv na véspera do 4º aniversário da invasão

Governança Global — Europa

Ataque noturno russo com drones e mísseis deixa ao menos um morto e 17 feridos em Kyiv, incluindo quatro crianças; ataques atingem setor energético e causam ...

Forças russas lançaram nesta segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026, um intenso ataque noturno com drones e mísseis contra Kyiv e sua região metropolitana — matando ao menos uma pessoa e ferindo outras 17, incluindo quatro crianças — numa escalada militar que ocorreu exatamente no dia imediatamente anterior ao quarto aniversário da invasão total russa do território ucraniano, marcada para 24 de fevereiro. O ataque foi amplamente condenado por líderes ucranianos e europeus como um ato deliberado de terror psicológico, destinado a impactar o estado de espírito da nação ucraniana às vésperas da data mais simbólica do conflito. O governador regional de Kyiv, Mykola Kalashnyk, anunciou via Telegram que os ataques danificaram mais de uma dúzia de residências em cinco distritos da região metropolitana. A operadora da rede elétrica ucraniana Ukrenergo informou que os ataques voltaram a ter como alvo prioritário o setor energético do país, causando apagões em várias regiões além de Kyiv — incluindo Dnipro, Kirovohrad, Mykolaiv, Poltava e Sumy, conforme o próprio Zelensky listou em publicação no X.O presidente Zelensky, em sua comunicação pública nesta segunda-feira, descreveu o ataque russo como mais uma prova de que Putin "não quer a paz" — uma formulação diretamente conectada à sua entrevista à CNN concedida no mesmo dia, na qual apelou ao presidente americano Donald Trump para que se mantivesse "do lado" da Ucrânia no processo de negociações. Zelensky registrou que, além da infraestrutura energética, edifícios residenciais e o sistema ferroviário ucraniano foram alvos dos ataques noturnos, tornando o bombardeio mais amplo do que os ataques puramente contra infraestrutura crítica que haviam marcado os meses anteriores.Em paralelo ao ataque aéreo sobre Kyiv, Zelensky condenou publicamente o que as autoridades ucranianas descreveram como um ataque terrorista com artefato explosivo improvisado (IED) em Lviv, no oeste da Ucrânia, que na véspera — 22 de fevereiro — havia matado uma policial de 23 anos e ferido outras 24 pessoas. O prefeito de Lviv, Andriy Sadovyi, classificou o ataque como "terrorista". A Polícia Nacional ucraniana declarou, conforme documentado pelo ACLED (Armed Conflict Location and Event Data), que considerava as explosões em Lviv e em Mykolaiv como "um ataque direcionado contra o sistema de aplicação da lei" — uma campanha coordenada de desestabilização atribuída a agentes de recrutamento do Serviço Federal de Segurança russo (FSB). A análise da ACLED indicava que os IEDs em Lviv (22 de fevereiro), Dnipro (23 de fevereiro) e Mykolaiv (23 de fevereiro) faziam parte de uma campanha coordenada de 48 horas destinada a minar a confiança pública nas forças de segurança ucranianas nas horas mais críticas do quarto aniversário da guerra.Em Mykolaiv, também em 23 de fevereiro, outro IED detonou em frente a um posto de gasolina não-funcional durante uma troca de turno da polícia, ferindo sete agentes, dois dos quais em estado grave. Em Dnipro, um IED danificou uma delegacia de polícia e um veículo, sem causar vítimas. A sequência de três ataques com explosivos artesanais em três cidades diferentes no mesmo intervalo de 48 horas representava um padrão inédito na guerra, segundo analistas de segurança ucranianos, e sinalizava que a Rússia estava tentando diversificar suas táticas para incluir uma campanha de subversão interna complementar aos ataques aéreos.Os ataques aéreos sobre a capital causaram incêndios em uma oficina de conserto de automóveis e em vários edifícios residenciais, além de forçar a evacuação de idosos de uma casa de repouso enquanto as chamas se espalhavam, segundo o Serviço de Emergências de Kyiv. Sistemas de defesa aérea ucranianos foram ativados em toda a região metropolitana durante a noite, com autoridades registrando múltiplas intercepções, mas sem divulgar o número exato de drones ou mísseis derrubados para não fornecer informação operacionalmente útil ao adversário.O contexto do ataque era de alto simbolismo geopolítico. Enquanto as forças russas bombardeavam Kyiv na noite do dia 23 para a madrugada do dia 24, delegações europeias de alto nível estavam em trânsito ou se preparando para viagens a Kyiv: a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, haviam anunciado visitas a Kyiv para o dia 24, e a sede europeia em Bruxelas havia hasteado neste mesmo 23 de fevereiro a bandeira ucraniana em frente à sede do Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE), pela primeira vez na história da instituição — gesto descrito pela chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, como uma expressão da convicção de que "o futuro da Ucrânia está dentro da UE."As baixas civis do ataque noturno em Kyiv — incluindo quatro crianças entre os feridos — foram amplamente divulgadas pelos aliados europeus como evidência de que a Rússia não estava genuinamente comprometida com as negociações de paz que se realizavam em paralelo. O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, emitiu comunicado de condenação imediata, descrevendo os ataques como "mais uma demonstração da brutalidade russa contra civis inocentes" e reafirmando o compromisso da aliança com a defesa aérea ucraniana.Para o Brasil e para o Itamaraty, o ataque de 23 de fevereiro inseriu-se numa dinâmica que o governo Lula acompanhava com preocupação crescente: a continuação — e intensificação — dos bombardeios russos contra infraestrutura civil ucraniana simultaneamente ao processo de negociações, o que tornava mais difícil qualquer saída diplomática que não fosse acompanhada de mecanismos robustos de monitoramento e cessação das hostilidades. A posição brasileira na ONU, de defesa de uma solução negociada, tornava-se cada vez mais difícil de sustentar diante de ataques que continuavam mesmo durante as tratativas diplomáticas.