Demanda por minerais críticos alerta ONU para risco de conflitos globais

Governança Global — Global

Transição para energia limpa triplica a busca por insumos estratégicos, enquanto Conselho de Segurança avalia medidas de governança e estabilidade internacio...

A urgência global pelos minerais da transição energéticaO Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) pautou, na última terça-feira (21), um debate central sobre o papel dos minerais críticos na manutenção da paz e da segurança internacional. Com a aceleração da transição para fontes de energia não fósseis, insumos como lítio, cobalto, níquel, cobre e grafite tornaram-se o pilar tecnológico de baterias, turbinas eólicas e painéis solares. A pauta emerge em um momento decisivo, pois a crescente competição por esses recursos naturais dita os novos rumos da diplomacia e da macroeconomia.O impacto econômico e as projeções de consumoA necessidade de descarbonizar a matriz global impulsiona projeções exponenciais de consumo para a próxima década. Veículos elétricos, por exemplo, exigem cerca de seis vezes mais minerais do que os automóveis convencionais, enquanto usinas eólicas demandam treze vezes mais recursos do que instalações movidas a gás natural. Segundo estimativas recentes, a demanda mundial por lítio pode aumentar em mais de 300% até 2040, e a busca geral por esses materiais estratégicos deverá triplicar já em 2030. Esse cenário transforma as jazidas minerais no equivalente geopolítico do petróleo do século passado.Governança fraca e o financiamento de redes criminosasApesar do imenso potencial de desenvolvimento econômico, a extração desenfreada carrega o ônus da instabilidade política em zonas de alta vulnerabilidade. O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, tem alertado sistematicamente que receitas ilícitas derivadas da mineração fortalecem grupos armados e agravam violações de direitos humanos em países produtores. O desmatamento, a poluição hídrica e a degradação do solo acompanham frequentemente as operações mal reguladas. A comunidade internacional enfrenta, portanto, o desafio de impedir que a abundância natural consolide a corrupção e prolongue guerras civis.O reposicionamento estratégico e a legislação do BrasilO Brasil, detentor de vastas reservas geológicas, adota medidas recentes para capitalizar sua posição na cadeia global de suprimentos. Em maio de 2026, a Câmara dos Deputados brasileira avançou com o texto da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), que visa fortalecer a supervisão federal e incentivar o processamento doméstico dos minérios. O país projeta expandir sua participação na produção global de 8,3% para 12,2% até 2050, consolidando-se como um fornecedor de nióbio, terras raras e ferro. Essa reestruturação legislativa sinaliza a intenção nacional de agregar valor à exportação e atrair investimentos seguros.O dilema entre a sustentabilidade e a geopolíticaAs decisões tomadas hoje pelos fóruns multilaterais definirão se a revolução verde será pautada pela cooperação ou por uma rivalidade predatória. A governança robusta, a transparência institucional e a partilha equitativa de benefícios surgem como os únicos caminhos viáveis para mitigar os riscos inerentes à mineração intensiva. A transição energética depende indissociavelmente dos recursos extraídos do subsolo, contudo o verdadeiro teste diplomático é de outra ordem. Poderão as nações transformar a corrida por minerais críticos em uma base sólida para a prosperidade ou repetirão os ciclos históricos de exclusão e conflito armado?