UNESCO inclui três sítios do Brasil em rede de memória da escravidão
Política Externa Brasileira — América do Sul
A inscrição contempla patrimônios na Bahia, Alagoas e Rio.
Reconhecimento de novos marcosO Ministério das Relações Exteriores (MRE) comunicou hoje a inclusão de três novos sítios históricos brasileiros na Rede de Lugares de História e Memória relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas. A decisão oficial havia sido aprovada em 23 de outubro pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), com sede em Paris. Os locais selecionados são o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, a Sociedade Protetora dos Desvalidos, na Bahia, e a Serra da Barriga, em Alagoas. Segundo a nota divulgada pela chancelaria brasileira, a medida busca preservar os registros materiais do tráfico transatlântico e valorizar a história da população negra para a formação das novas gerações. Cada um dos espaços reconhecidos representa uma dimensão específica da chegada e da resistência de africanos no território nacional.Cais do Valongo no RioLocalizado na zona portuária da cidade do Rio de Janeiro, o Cais do Valongo conserva os vestígios materiais do principal porto de entrada de africanos escravizados no continente americano. Construído em 1811 pela intendência da corte portuguesa para retirar o comércio de cativos da rua Direita, no centro urbano, o ancoradouro recebeu cerca de 500 mil a 1 milhão de pessoas trazidas da África ao longo de duas décadas de operação. Em razão de sua importância arqueológica como testemunho material da diáspora africana, o sítio já integra a Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO desde julho de 2017. A preservação desse complexo portuário conecta a memória do desembarque forçado às formas de resistência e organização social desenvolvidas em outras regiões do país.Resistência na Bahia e AlagoasNo Nordeste, o reconhecimento internacional abrange dois marcos da luta contra o regime escravista entre os séculos XVII e XIX. Em União dos Palmares, no estado de Alagoas, a Serra da Barriga abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, território que sediou a maior comunidade de fugitivos da escravidão nas Américas e foi liderado por Zumbi dos Palmares até sua destruição militar em 1694. Já em Salvador, na Bahia, a Sociedade Protetora dos Desvalidos (SPD), fundada em 16 de setembro de 1832, destaca-se como a mais antiga associação civil de auxílio mútuo da população negra em funcionamento contínuo no Brasil. Na época do Império, a instituição arrecadava fundos para comprar cartas de alforria e garantir assistência financeira a trabalhadores negros.Coordenação diplomática na UNESCOA Rede de Lugares de História e Memória foi criada pela UNESCO em 2024, durante as comemorações dos 30 anos do programa Rotas das Pessoas Escravizadas, para estimular o intercâmbio técnico, o turismo de memória e projetos pedagógicos com a participação de comunidades locais. De acordo com as regras da entidade, as candidaturas são apresentadas pelas Comissões Nacionais para a UNESCO, função que no Brasil é exercida diretamente pelo Itamaraty em articulação com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e o Ministério da Cultura (MinC). Com as três novas inscrições de outubro de 2026, o Brasil dobra sua presença na rede internacional, que já contava com o Museu da Inconfidência, em Minas Gerais, o Museu Casa da Hera e o Museu da República, ambos no estado do Rio de Janeiro. Essa atuação na diplomacia cultural reforça os compromissos externos do Estado brasileiro no combate ao racismo e na promoção dos direitos humanos.