Novo relatório da FAO sobre Florestas aponta caminhos para preservação com exemplos do ...
Meio Ambiente — Global
Pernambuco é destacado como caso de sucesso pela cooperação com o povo Xukuru na restauração da caatinga
O Relatório “Estado das Florestas no Mundo”A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) divulgou hoje, 28 de setembro de 2026, o relatório “Estado das Florestas no Mundo”, enfatizando a necessidade premente de ações coordenadas para a recuperação de ecossistemas. O documento delineia as diretrizes essenciais para reverter o ciclo de degradação que ameaça a biodiversidade e a estabilidade climática global, destacando os riscos para a segurança alimentar e econômica das nações. O estudo também ressalta que o investimento em restauração florestal pode gerar até 20 milhões de novos empregos verdes até 2030.Diagnóstico da degradação e escala do desafioOs dados apresentados pelo relatório revelam que a extensão da degradação florestal atingiu níveis alarmantes, impactando a capacidade natural de absorção de carbono pelo planeta. Conforme o documento, 489 milhões de hectares de floresta foram perdidos entre 1990 e 2025, enquanto outros 460 milhões de hectares encontram-se degradados. Anualmente, 127 milhões de hectares são atingidos por incêndios, pragas e eventos climáticos severos, e a velocidade da perda anual de cobertura arbórea, impulsionada pela expansão agrícola desordenada e pela extração de recursos sem manejo adequado, supera as iniciativas atuais de conservação. Esse cenário cria desafios profundos em especial para os países que dependem diretamente dos serviços ecossistêmicos para manter seus ciclos hidrológicos e a qualidade dos solos. Estratégias de manejo e o papel do BrasilA FAO destaca que a restauração de 1 bilhão de hectares de terras degradadas poderia gerar 1,8 trilhão de dólares anuais em benefícios, abrangendo a melhoria da biodiversidade, a regulação hídrica e a saúde dos solos. Contudo, a janela de oportunidade para implementar medidas eficazes de restauração é descrita pelo estudo como estreita, exigindo a integração de estratégias de manejo sustentável com o engajamento das comunidades locais e o uso de tecnologias de monitoramento avançadas. O documento cita exemplos vindos do Brasil, tais quais a implementação de corredores ecológicos e o fortalecimento de unidades de conservação, como modelos de sucesso que demonstram a viabilidade técnica de reverter áreas anteriormente degradadas para um estado de vitalidade biológica. Um caso notável que combinou espécies nativas com o cultivo de subsistência de populações tradicionais foi a restauração permitida com ajuda do povo Xukuru em Pernambuco, que conseguiu restaurar 91,7 hectares no bioma da caatinga, incluindo o retorno da fauna e da flora e o ressurgimento de fontes de água, fortalecendo a segurança alimentar local.A posição do Brasil na diplomacia ambientalO Brasil ocupa uma posição de destaque nas metas globais de restauração, com uma diplomacia ambiental que busca conciliar metas de preservação com o desenvolvimento socioeconômico. Em sua atuação em fóruns, o Brasil defende que a proteção de seus biomas é uma responsabilidade compartilhada que requer apoio financeiro e cooperação técnica da comunidade global. Com isso, a delegação brasileira na FAO tem articulado um novo fundo multilateral destinado a compensar países tropicais pela manutenção de serviços ecossistêmicos de alcance mundial. O relatório da FAO também reconhece os avanços da legislação brasileira, com destaque para a Lei 12.651 de 2012, que impõe obrigações vinculantes de restauração em Áreas de Preservação Permanente (APP) e reservas legais. A Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (PROVEG), instituída pelo Brasil em 2017, estabelece a meta de recuperar 12 milhões de hectares de florestas até 2030. Governança global e a próxima cúpula de biodiversidadeA preservação florestal está intrinsecamente ligada à segurança climática internacional, posicionando as florestas como ativos críticos na geopolítica do século XXI. Acordos multilaterais e tratados de cooperação técnica formam a base da governança global, sendo essenciais para alinhar os interesses nacionais e enfrentar desafios transnacionais. O relatório da FAO enfatiza que a harmonização de legislações nacionais para o combate ao comércio ilegal de madeira é o próximo grande desafio para as mesas de negociação na próxima cúpula de biodiversidade (COP17) que ocorrerá em outubro, na Armênia. Este encontro refere-se à Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP-CDB), instância máxima de decisão global que reúne chefes de Estado e especialistas para deliberar sobre a implementação de metas ambiciosas para a conservação da fauna e flora. O evento é considerado o principal espaço diplomático para transformar compromissos científicos em ações regulatórias vinculantes para assegurar a integridade ecológica do planeta na próxima década.