Venezuela formaliza retirada do Tribunal Penal Internacional

Governança Global — América Latina

Governo venezuelano denuncia o Estatuto de Roma e alega viés geográfico desproporcional da corte de Haia contra o Sul Global.

Anúncio oficial da retirada venezuelanaA Venezuela anunciou formalmente a sua retirada definitiva do Tribunal Penal Internacional (TPI) nesta sexta-feira, dia 24 de julho de 2026. O ministro das Relações Exteriores, Félix Plasencia, comunicou a decisão firme e irrevogável ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres. A medida concretiza o acionamento do Artigo 127 do Estatuto de Roma, documento fundacional da corte sediada em Haia. Esta ação diplomática foi executada sob ordens diretas da presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez. A notificação encerra um longo período de atritos jurídicos e políticos entre Caracas e o tribunal internacional.Justificativa baseada no viés geográficoO Ministério das Relações Exteriores da Venezuela fundamentou a ruptura acusando o tribunal de operar com um viés geográfico comprovado. Plasencia argumentou que a instituição concentra as suas investigações de maneira desproporcional em nações do continente africano e da América Latina, em detrimento do Sul Global. A diplomacia venezuelana classificou a justiça internacional aplicada pela corte como um instrumento político. Segundo o governo de transição, o órgão internacional aprofunda desigualdades entre os povos, ignorando o direito à autodeterminação e à soberania. A Assembleia Nacional já havia aprovado um projeto de revogação da adesão em dezembro do ano passado. Esse cenário levanta questionamentos sobre a legitimidade percebida das instituições de governança global.Contexto das investigações em HaiaA relação entre a Venezuela e o tribunal sofreu desgastes profundos devido às investigações sobre possíveis crimes contra a humanidade. O órgão internacional apura violações de direitos humanos cometidas no país desde 2017, período sob o controle do regime do ditador deposto Nicolás Maduro. Em março de 2024, a corte rejeitou um pedido venezuelano para interromper as apurações, confirmando a continuidade dos inquéritos. Caracas havia recorrido com base no princípio da complementaridade, alegando que os supostos crimes já estariam sob investigação nos tribunais domésticos. No entanto, os juízes de apelação negaram todos os fundamentos da defesa venezuelana por unanimidade. A recusa em aceitar a jurisdição externa acelerou o isolamento jurídico do país.Repercussões e alinhamentos geopolíticosA saída da Venezuela do sistema de justiça de Haia gerou reações imediatas e evidenciou novas dinâmicas geopolíticas. O Departamento de Estado dos Estados Unidos celebrou a decisão venezuelana, alinhando-se criticamente contra o tribunal internacional. Representantes americanos afirmaram que a corte desperdiçou recursos ao investigar Maduro desde 2018 sem apresentar resultados efetivos. A captura de Nicolás Maduro em uma operação militar no início de 2026 alterou o equilíbrio de poder em Caracas, mas a postura do novo governo interino manteve o distanciamento das instâncias jurídicas internacionais. O episódio consolida uma tendência de ceticismo por parte de alguns Estados em relação ao direito penal internacional. Resta observar como os demais países sul-americanos irão calibrar as suas políticas externas diante desta nova reconfiguração regional.