Brasil mobiliza força nacional para fronteira com Venezuela em resposta à captura de Ma...
Segurança e Paz — América do Sul
Brasil mobiliza Força Nacional para fronteira com Venezuela após captura de Maduro pelos EUA, em medida defensiva que reflete temor de novo fluxo migratório ...
O governo brasileiro autorizou o envio de tropas da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP) para a região de fronteira com a Venezuela, numa resposta direta à escalada da crise provocada pela operação militar dos Estados Unidos que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro no último final de semana. O decreto, publicado na quinta-feira, 8 de janeiro, e reportado pela agência Al Jazeera nesta sexta-feira, 9, autoriza o deslocamento de efetivos para os municípios de Pacaraima e Boa Vista, capital do estado de Roraima, áreas que concentram a maior parte do fluxo migratório venezuelano e que agora se tornam ponto nevrálgico da nova fase da crise regional. A decisão de Brasília ocorre num contexto de profunda incerteza quanto ao futuro da Venezuela, após a ousada incursão americana em Caracas que culminou na detenção de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, e que já provocou reações divergentes entre os países latino-americanos, expondo as fraturas políticas do continente.O decreto presidencial, assinado por Luiz Inácio Lula da Silva, não especifica o número de agentes a serem mobilizados, limitando-se a autorizar o emprego da FNSP "em ações de defesa da faixa de fronteira, preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio" na região. A Força Nacional é uma força de segurança composta por policiais militares e bombeiros de diversos estados, coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, e costuma ser empregada em situações de grave perturbação da ordem ou em operações de garantia da lei e da ordem em áreas críticas. A sua mobilização para a fronteira norte indica que o governo brasileiro avalia como elevado o risco de desestabilização na região, seja por eventual aumento do fluxo de refugiados, seja por possíveis incursões de grupos armados ou ações de militares venezuelanos leais ao regime deposto que tentem cruzar a fronteira.A decisão de Lula ocorre num momento de delicado equilíbrio diplomático. O presidente brasileiro, que historicamente mantém relações próximas com o chavismo e criticou duramente as sanções americanas contra a Venezuela, viu-se forçado a reagir a um fato consumado: a ação unilateral de Washington violou a soberania de um país vizinho, mas resultou na captura de um líder cuja legitimidade era contestada por parcela significativa da comunidade internacional. Nos dias que se seguiram à operação, o governo brasileiro manteve silêncio cauteloso, enquanto o presidente colombiano, Gustavo Petro, convocava manifestações em defesa da soberania venezuelana e os presidentes do Chile e do Peru, José Antonio Kast e José Jerí, reuniam-se para discutir políticas migratórias diante do agravamento da crise. A mobilização da Força Nacional, mais do que uma medida de defesa territorial, pode ser interpretada como um sinal de que o Brasil se prepara para o pior: um colapso da ordem na Venezuela que force uma nova onda migratória em direção ao território brasileiro.A região de Pacaraima, na fronteira entre os dois países, já havia sido palco de graves tensões durante os picos da crise migratória venezuelana, entre 2018 e 2020, quando milhares de pessoas cruzavam diariamente a fronteira fugindo da fome e da perseguição política. O pequeno município de 12 mil habitantes viu sua população dobrar com a chegada de refugiados, e os serviços públicos locais entraram em colapso. A crise só foi parcialmente aliviada com a interiorização dos venezuelanos para outras cidades brasileiras, programa coordenado pelo governo federal em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). O temor agora é que a instabilidade política agravada pela captura de Maduro — e pela incerteza quanto ao futuro do regime — provoque um novo êxodo, num momento em que o Brasil enfrenta suas próprias dificuldades econômicas e fiscais.A mobilização das forças de segurança também reflete a preocupação do governo com a possibilidade de incidentes na fronteira envolvendo militares venezuelanos. As Forças Armadas da Venezuela, tradicionalmente leais ao chavismo, encontram-se num vácuo de poder após a captura de Maduro. Embora setores das Forças Armadas tenham anunciado lealdade ao presidente interino, figuras próximas ao regime deposto podem tentar resistir ou buscar refúgio em países vizinhos. O governo brasileiro, ao posicionar a Força Nacional na fronteira, sinaliza que não tolerará incursões armadas em território nacional e que está preparado para garantir a ordem, qualquer que seja o desfecho da crise venezuelana. A medida, embora defensiva, adiciona um novo elemento de tensão a um cenário regional já dramaticamente transformado pela ação unilateral dos Estados Unidos no coração da América do Sul.