Acordo Mercosul-UE enfrenta novos impasses
Economia e Comércio — Global
Exigências ambientais da França travam finalização do tratado comercial em Bruxelas
Nesta quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026, as negociações entre o Mercosul e a União Europeia sofreram um novo revés durante a rodada técnica realizada em Bruxelas. O governo francês, apoiado pela Áustria e pela Irlanda, apresentou um conjunto adicional de salvaguardas ambientais que exige o monitoramento por satélite de toda a cadeia produtiva de carne bovina e soja importada dos países sul-americanos. Esta exigência, classificada como "protecionismo verde" pelos negociadores do Mercosul, impede a assinatura do documento final, que vinha sendo prometida para o primeiro semestre deste ano. O impasse reflete a dificuldade de conciliar a agenda de liberalização comercial com as metas rigorosas do Pacto Ecológico Europeu (Green Deal).O Itamaraty, agindo como coordenador informal das demandas do bloco sul-americano, reagiu com firmeza às novas condições. Em nota oficial emitida em Brasília, o governo brasileiro afirmou que não aceitará sanções unilaterais baseadas em critérios ambientais que não considerem as legislações nacionais e os esforços de preservação já em curso, como a redução drástica do desmatamento na Amazônia registrada nos últimos dois anos. Para os diplomatas do Mercosul, as exigências europeias violam o princípio da soberania e criam barreiras não tarifárias injustificadas, prejudicando a competitividade do agronegócio regional em troca de concessões industriais que ainda são alvo de debate interno.No lado europeu, a Comissão Europeia está sob intensa pressão de lobbies agrícolas locais, especialmente na França, onde agricultores realizaram protestos bloqueando estradas nas últimas semanas. O presidente francês reiterou que não ratificará nenhum acordo que não contenha as chamadas "cláusulas espelho", que obrigariam os produtores do Mercosul a seguir as mesmas normas fitossanitárias e ambientais impostas aos agricultores europeus. Esta posição é contestada pela Alemanha e pela Espanha, que veem no acordo uma oportunidade estratégica fundamental para reduzir a dependência comercial em relação à China e garantir o fornecimento de matérias-primas críticas para a transição energética europeia.O cenário geopolítico de 2026 torna o atraso ainda mais sensível. A ascensão de blocos econômicos alternativos, como o BRICS+, que tem expandido sua zona de influência na América do Sul, serve de alerta para Bruxelas. Caso o acordo com a União Europeia fracasse definitivamente, os países do Mercosul sinalizaram que buscarão acelerar tratados de livre comércio com a China e com o Sudeste Asiático. Uruguai e Paraguai, inclusive, já demonstraram impaciência com a demora das negociações transatlânticas, sugerindo que o bloco sul-americano deveria priorizar parcerias mais pragmáticas e menos ideologizadas do ponto de vista normativo-ambiental.O impacto econômico da falta de conclusão do acordo é estimado em bilhões de dólares em potencial de exportação não realizado. Além do comércio de bens, o tratado envolve compras governamentais, serviços e propriedade intelectual. A persistência dos impasses demonstra que, além das divergências técnicas, há um choque de visões sobre o papel do desenvolvimento sustentável no comércio global. Enquanto a Europa tenta exportar seus padrões regulatórios, o Mercosul defende o "direito ao desenvolvimento" e a responsabilidade comum, porém diferenciada, conforme estabelecido nos acordos climáticos de Paris. O próximo encontro de alto nível está marcado para abril, mas o otimismo entre os analistas é escasso.