Plano automotivo da União Europeia preocupa parceiros globais

Economia e Comércio — Europa

A regra exige 70% de peças locais nos veículos e divide montadoras e fornecedores.

Subsídios restritos à produção localA União Europeia (UE) avança na discussão de uma nova política industrial para proteger seu setor automotivo contra a expansão das montadoras da China: o plano estabelece que os subsídios públicos serão concedidos apenas aos veículos que possuam pelo menos 70% do valor total de seus componentes fabricados na Europa, excluindo as baterias. Após meses de negociações, Alemanha e França firmaram um compromisso neste mês de outubro para permitir que países europeus de fora da UE, como Reino Unido e Noruega, sejam enquadrados como produtores de origem europeia. Essa concessão franco-alemã, contudo, manteve de fora outros parceiros comerciais históricos que dependem diretamente das vendas para o mercado comunitário. Impacto direto sobre a TurquiaA exclusão mais sensível recai sobre a Turquia, país que mantém acesso amplo ao mercado europeu desde meados da década de 1990 por força de seu acordo de união aduaneira com Bruxelas. Segundo dados turcos, 73% das exportações automotivas da Turquia têm como destino a UE, somando 30,1 bilhões de dólares em 2024. Embora a versão inicial do projeto europeu abrangesse apenas veículos elétricos, híbridos recarregáveis e modelos a célula de combustível, que representaram 27% dos emplacamentos do bloco no ano passado, a revisão acordada por Berlim e Paris estendeu a exigência para híbridos convencionais e carros a combustão permitidos após 2035. Essa ampliação atinge a maior parte dos quase 800 mil veículos exportados anualmente pelos turcos, além de frear projetos asiáticos em território turco, como a fábrica de 1 bilhão de dólares da montadora chinesa Build Your Dreams (BYD) em Manisa, atualmente suspensa, e a unidade da empresa SWM Motors em Eskisehir, fechada por não atender às normas de segurança europeias.Reflexos no Marrocos e na ÁsiaO endurecimento das regras de origem também afeta diretamente o Marrocos, o Japão e a Coreia do Sul, países que desempenham papéis estratégicos no fornecimento de veículos e componentes para o continente europeu. No caso marroquino, o país recebeu mais de 10 bilhões de euros em investimentos chineses voltados para baterias e autopeças desde a pandemia, o que levou Bruxelas a temer uma via indireta de entrada para produtos da China. Paralelamente, fabricantes do Japão e da Coreia do Sul, como as empresas Hyundai e Kia, perderão o acesso aos subsídios nos veículos exportados diretamente da Ásia, enquanto os automóveis montados em fábricas da França, de Portugal, da República Tcheca e da Eslováquia precisarão comprovar a cota mínima de peças locais. Em contrapartida, as fábricas sul-coreanas de baterias instaladas na Polônia e na Hungria serão reconhecidas como europeias. Essas novas exigências regulatórias provocam uma divisão interna entre as próprias empresas instaladas na Europa.Disputa entre montadoras e fornecedoresDentro do mercado europeu, o alcance do plano opõe os interesses das grandes montadoras aos dos fabricantes de autopeças. De acordo com pesquisadores do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica (CNRS), os grupos automotivos tentam flexibilizar as regras para manter a importação de componentes mais baratos da China e do norte da África, alegando que a Europa já produz cerca de 83% das peças de um carro elétrico médio, sem contar a bateria. Por outro lado, a Associação Europeia de Fornecedores Automotivos (CLEPA) defende regras rígidas para evitar o desaparecimento de até 650 mil empregos industriais no continente até 2035. Parceiros como Turquia, Marrocos, Japão e Coreia do Sul poderão integrar o programa futuramente, desde que cumpram critérios objetivos de alinhamento regulatório, reciprocidade comercial e mecanismos contra o desvio de rota de peças chinesas. Resta saber se o Parlamento Europeu e o Conselho da União Europeia aprovarão um modelo estritamente protecionista ou se criarão regras de transição capazes de preservar as alianças comerciais do bloco.