Funeral de criminoso de guerra gera crise diplomática e trava adesão da Sérvia à União ...

Segurança e Paz — Europa

Líderes europeus criticam a Sérvia por glorificação no funeral de Mladić, um dos responsáveis pelo genocício de Srebrenica

A crise diplomáticaA realização do funeral do criminoso de guerra Ratko Mladić com honras oficiais, ocorrida na segunda-feira, dia 7 de setembro de 2026, desencadeou uma reação imediata e contundente das autoridades europeias nesta terça-feira, 8 de setembro. O evento, que contou com a presença de diversos ministros sérvios e foi marcado pela utilização de uma aeronave estatal para o transporte do corpo, alterou o panorama diplomático da região ao provocar condenações de líderes europeus e de instituições da União Europeia (UE). Essa crise aponta para um retrocesso significativo na imagem da Sérvia perante o bloco e impacta o processo de adesão já iniciado pela Sérvia, uma vez que a celebração desafiou frontalmente os compromissos de reconciliação regional exigidos pela UE.O legado de Ratko MladicRatko Mladic, frequentemente denominado o carrasco da Bósnia, faleceu no final de agosto em uma unidade de detenção da Organização das Nações Unidas (ONU) em Haia, aos 84 anos. O antigo comandante militar sérvio-bósnio cumpria pena de prisão perpétua, imposta pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII), por sua responsabilidade direta em crimes de guerra, crimes contra a humanidade e no genocídio de Srebrenica, em 1995. A sua figura, embora central na história das atrocidades dos anos 1990, permanece uma fonte de polarização profunda, com setores nacionalistas sérvios reivindicando-o como uma personalidade heroica, em oposição direta às sentenças da justiça internacional.A condenação institucional da União EuropeiaAs instituições da União Europeia reagiram com dureza à participação de ministros sérvios no funeral de Ratko Mladic, realizado com aparato estatal em Belgrado. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, publicaram declarações conjuntas afirmando que a presença de funcionários de alto escalão e a oferta de honras militares a um criminoso condenado por genocídio é incompatível com o caminho da Sérvia rumo à integração europeia, por contradizer frontalmente os valores democráticos fundamentais exigidos para a integração ao bloco. A Alta Representante para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Kaja Kallas, reforçou que o caminho de qualquer nação rumo à União Europeia exige um compromisso inequívoco com a verdade histórica e com os pilares da reconciliação, elementos que foram gravemente ignorados durante a homenagem fúnebre.Reações internacionais e o isolamento diplomáticoO impacto do funeral transcendeu as fronteiras da Sérvia, escalando rapidamente para uma crise profunda com a vizinha Bósnia e Herzegovina, país onde Mladić comandou as forças que protagonizaram os crimes mais atrozes da guerra na década de 1990.O governo bósnio reagiu à cerimônia com a expulsão de dois diplomatas sérvios e a redução do nível de representação diplomática em Belgrado, declarando que o evento ultrapassou limites diplomáticos inaceitáveis. Isso se refere à indignação bósnia frente à glorificação de um oficial condenado por orquestrar o genocídio de Srebrenica e o cerco de Sarajevo e ao que consideram uma tentativa deliberada da Sérvia em reescrever um passado de limpeza étnica que ainda causa traumas profundos na sociedade bósnia. Além da crise regional, o Reino Unido somou-se à pressão internacional ao convocar o encarregado de negócios sérvio, sublinhando que a glorificação de criminosos de guerra, além de minar a confiança dos parceiros, alimenta divisões que dificultam os esforços de reconciliação na região dos Bálcãs.Impactos no processo de adesão à União EuropeiaEste incidente coloca em xeque as negociações para a entrada da Sérvia na União Europeia, que já se encontravam em um cenário de alta complexidade. Desde julho de 2026, oito Estados-membros do bloco bloqueiam o avanço dos novos clusters de negociação de adesão, motivados por divergências persistentes em relação ao Estado de direito e à falta de alinhamento político de Belgrado com as diretrizes da União Europeia. Diante dessa crise mais recente, a comissária de Alargamento da União Europeia, Marta Kos, cancelou sua agenda oficial na capital sérvia, confirmando que a glorificação de figuras condenadas por crimes de lesa-humanidade inviabiliza, no atual contexto, a continuidade das tratativas para a expansão do bloco na região.