Etiópia Expulsa Jornalistas da Reuters por Revelar Campo Secreto de Treinamento RSF

Direitos Humanos — Ásia e Oceania

Governo etíope revogou as acreditações jornalísticas da Reuters em 10 de fevereiro em resposta a artigo alegando que militares etíopes apoiavam o grupo param...

O governo da Etiópia revogou nesta terça-feira, 10 de fevereiro de 2026, as acreditações jornalísticas de correspondentes da agência Reuters no país, como resposta direta a uma reportagem publicada pela agência no mesmo dia, na qual jornalistas da Reuters alegavam que militares etíopes estavam apoiando as Forças de Apoio Rápido (RSF, sigla em inglês) — o grupo paramilitar liderado pelo general Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como "Hemeti" — no conflito civil do Sudão, através da operação de campos de treinamento secretos em território etíope. A decisão foi anunciada pelo governo etíope através da Comissão Etíope de Mídia e pela Autoridade de Imprensa da Etiópia, e foi confirmada pela Bloomberg, que havia tido acesso à reportagem original da Reuters.A reportagem da Reuters descrevia, com base em fontes confidenciais e evidências documentais, que o governo etíope do primeiro-ministro Abiy Ahmed havia estabelecido campos de treinamento clandestinos nas regiões fronteiriças da Etiópia com o Sudão, onde soldados e paramilitares das RSF recebiam treinamento tático e logístico. As alegações, se confirmadas, teriam implicações gravíssimas para a política regional da Etiópia, para as relações de Adis Abeba com o governo sudanês de transição liderado pelo general Abdel Fattah al-Burhan — que estava em conflito armado com as RSF desde abril de 2023 —, e para a posição da Etiópia na União Africana, de cuja sede em Adis Abeba depende parte significativa da legitimidade diplomática do país no continente.O governo etíope rejeitou categoricamente as alegações da Reuters. A declaração oficial do governo de Abiy Ahmed qualificou a reportagem como "mentirosa", "infundada" e "parte de uma campanha de desinformação" contra a Etiópia. O governo afirmou que não havia qualquer apoio etíope ao RSF e que as alegações representavam uma interferência na soberania e na reputação internacional da Etiópia. A revogação das acreditações foi descrita pelo governo etíope como uma resposta "necessária e legítima" diante da publicação do que classificou como "desinformação com impacto direto na segurança nacional."A decisão de expulsar correspondentes da Reuters gerou imediata reação internacional. A Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), o Comitê de Proteção de Jornalistas (CPJ) e a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) emitiram comunicados condenando a revogação das acreditações como um ataque à liberdade de imprensa e um ato de retaliação governamental contra o jornalismo investigativo. A Delegação da União Europeia em Adis Abeba também expressou "preocupação séria" com a decisão etíope, ressaltando que a liberdade de imprensa era um valor central das relações UE-Etiópia e que qualquer restrição ao trabalho jornalístico era contrária ao compromisso etíope com os padrões internacionais de direitos humanos.O contexto regional que embasava a reportagem era de extrema gravidade. A guerra civil no Sudão, iniciada em abril de 2023, havia se tornado um dos conflitos humanitários mais devastadores do mundo: segundo o OCHA, mais de 11 milhões de pessoas haviam sido deslocadas internamente até o início de 2026 — tornando o Sudão o maior deslocamento interno do planeta —, e mais de 25 milhões necessitavam de assistência humanitária urgente. As RSF haviam sido amplamente documentadas como autoras de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo massacres étnicos em Darfur que reacenderam comparações com o genocídio de 2003-2004.A alegação de envolvimento etíope no apoio às RSF — se confirmada — transformaria a dinâmica do conflito sudanês de forma fundamental. A Etiópia de Abiy Ahmed havia sido um dos principais mediadores internacionais das conversas de paz sudanesas em foros como a Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (IGAD) e a União Africana. Um apoio etíope às RSF significaria que o país estava, ao mesmo tempo, sendo mediador oficial e patrocinador de uma das partes em conflito — um conflito de interesses de enorme gravidade geopolítica.Para o Brasil, o episódio etíope era relevante tanto como caso de liberdade de imprensa quanto como exemplo da dinâmica de conflitos em cascata na África Subsaariana. O Brasil havia defendido, ao longo do período em que presidiu o Conselho de Segurança da ONU (2022 e 2023), resoluções sobre proteção de civis no Sudão, e mantinha posição de suporte ao trabalho humanitário e jornalístico em zonas de conflito. A expulsão de correspondentes da Reuters pela Etiópia era um exemplo de como governos autoritários ou semi-autoritários instrumentalizavam o controle da informação para gerenciar narrativas sobre conflitos nos quais estavam envolvidos.