Zelensky apela a Trump: 'Fique do nosso lado'
Governança Global — Europa
Em entrevista exclusiva à CNN na véspera do 4º aniversário da invasão, Zelensky apela diretamente ao presidente americano e revela os pontos críticos irresol...
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky concedeu nesta segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026, uma entrevista de alta ressonância política ao canal CNN no Palácio Presidencial em Kyiv, na véspera do quarto aniversário da invasão total russa do território ucraniano. Na entrevista, transmitida ao vivo e repercutida em todo o mundo ocidental, Zelensky realizou um apelo emocional direto ao presidente Donald Trump — "quero que ele fique do nosso lado" —, revelou os principais pontos de impasse nas negociações de paz trilaterais, e expressou preocupação crescente com a possibilidade de um acordo que não garantisse proteção real para a Ucrânia no longo prazo.A frase central da entrevista — "Eles devem ficar com uma democracia que está lutando contra uma pessoa. Porque esta pessoa é a guerra. Putin é a guerra. É tudo sobre ele mesmo. É tudo sobre uma pessoa. E o país, todo o seu país, está numa prisão" — foi amplamente divulgada como uma das mais contundentes que Zelensky havia proferido ao longo dos quatro anos de conflito. O presidente ucraniano afirmou que os EUA eram "grandes e importantes demais para se afastar" do conflito, e expressou esperança de que Trump, em seu discurso sobre o Estado da União previsto para a terça-feira, endossasse a causa ucraniana.O ponto de maior tensão técnica nas negociações, revelado por Zelensky à CNN, era a questão das garantias de segurança. O presidente ucraniano disse que recebia da parte de seus aliados a garantia de que a Rússia "simplesmente não iniciaria outra guerra". "Esta não é a resposta para mim. Sinto muito", disse Zelensky. "Temos boas coisas nestas garantias de segurança, é verdade. Mas quero uma resposta muito específica: o que nossos parceiros estarão prontos para fazer se Putin vier novamente. É isso que os ucranianos querem ouvir." Zelensky acrescentou que insistia em que as garantias de segurança fossem ratificadas pelo Congresso americano antes da assinatura de qualquer acordo de paz — uma salvaguarda que tornaria as promessas de Washington vinculantes independentemente das mudanças de administração no futuro. "Os presidentes mudam, mas as instituições ficam", havia declarado anteriormente à BBC.Zelensky expôs à CNN também a divergência fundamental sobre a sequência dos documentos de paz. Trump, segundo o presidente ucraniano, propunha uma "grande cerimônia" na qual todos os documentos seriam assinados simultaneamente: o acordo de paz entre Ucrânia e Rússia, o acordo de segurança entre Kiev e os EUA, e o acordo de garantias com os europeus — tudo de uma vez, num evento que teria grande apelo simbólico e político para o presidente americano. Zelensky, entretanto, insistia na posição oposta: as garantias de segurança deviam ser ratificadas pelo Congresso americano primeiro, e apenas depois o acordo com a Rússia seria assinado. Para o líder ucraniano, esta sequência era a única que garantia que os compromissos americanos seriam juridicamente vinculantes antes de Kiev conceder qualquer coisa.A questão territorial do Donbas foi descrita por Zelensky como um dos "assuntos mais espinhosos" ainda não resolvidos nas negociações. A Rússia exigia que a Ucrânia retirasse completamente suas forças dos aproximadamente 20% do Oblast de Donetsk ainda sob controle ucraniano — incluindo a chamada "fortress belt" (cinturão de fortalezas), composto de cidades industriais, ferrovias e estradas que formam a espinha dorsal da defesa e do abastecimento da linha de frente ucraniana. "A Rússia quer que nós simplesmente retiremos nosso exército. Não podemos ser tão, com licença, estúpidos. Não somos crianças. Passamos por esta guerra durante todos estes anos, e simplesmente não podemos entregar-lhes o país num prato", declarou Zelensky, acrescentando que 200.000 pessoas viviam naquelas regiões e que havia obrigação moral para com elas.Zelensky também disse à CNN que a Ucrânia estava disposta a congelar a guerra ao longo das linhas de frente atuais — uma concessão significativa em relação à posição máxima de Kiev de recuperação de todo o território ucraniano, incluindo a Crimeia. Mas acrescentou que qualquer retirada de tropas ucraniana teria que ser recíproca, com Moscou cedendo territórios equivalentes, e que as zonas resultantes se tornariam desmilitarizadas supervisionadas por forças internacionais. A Rússia havia rejeitado todos os termos de retirada recíproca.A entrevista foi concedida num contexto de grande pressão doméstica sobre Zelensky. O general Valeri Zaluzhny — ex-comandante supremo das Forças Armadas ucranianas, deposto por Zelensky e enviado como embaixador ao Reino Unido —, havia voltado publicamente ao debate político ucraniano, sendo apresentado por analistas como o principal rival eleitoral ao presidente em qualquer votação futura. Zelensky, quando perguntado sobre as eleições, reiterou que não estava "totalmente contra" realizá-las, mas insistiu que seria "terrível" fazê-lo enquanto o país estava sob ataque, e que 90% dos ucranianos se opunham a eleições antes de qualquer cessar-fogo ou garantias de segurança, segundo pesquisa do Instituto Sociológico Internacional de Kiev (KIIS).