Ucrânia vende armas testadas em batalha
Economia e Comércio — Europa
Kyiv autoriza primeiras vendas externas e avalia taxar exportações para financiar o próprio esforço militar, em meio a deslocamento massivo, avanço russo e i...
A Ucrânia deu nesta sexta-feira um passo econômico e estratégico para sustentar sua resistência militar ao autorizar, pela primeira vez desde a invasão em 2022, exportações de bens e serviços do setor de defesa e ao admitir que pode taxar esse fluxo para financiar necessidades das próprias Forças Armadas. Em entrevista à Reuters, o dirigente ucraniano Davyd Aloian, vice-secretário do Conselho Nacional de Segurança e Defesa, estimou que as exportações autorizadas em 2026 podem chegar a “vários bilhões de dólares” quando considerados produtos acabados, peças, componentes e serviços — ainda que, segundo ele, a prioridade continue sendo o фронт (front) e os interesses nacionais. A mudança se apoia em um diagnóstico de guerra longa: a Ucrânia suspendeu exportações de armas após fevereiro de 2022 e passou a depender intensamente do suprimento de parceiros, mas, ao mesmo tempo, investiu recursos na construção de uma indústria de armamentos, com avanço particular em drones e mísseis. A Reuters descreveu esse processo como um “boom” de tecnologia de defesa alimentado pela experiência de combate, e Aloian indicou que o potencial exportador atual seria significativamente maior do que o verificado antes da guerra. O objetivo, pela lógica de Kyiv, é evitar que fabricantes percam oportunidades no mercado global e, ao mesmo tempo, transformar capacidade industrial em canal para captar recursos e tecnologia. A operacionalização do retorno ao comércio externo, contudo, foi desenhada para não contradizer o esforço de guerra. A comissão estatal que lida com licenças em tempo de guerra aprovou, no início do mês, a maioria de 40 solicitações de exportação; Aloian disse que, entre as aprovações, não há exportação de armas prontas para uso e que a maioria dos pedidos tem como destino final a reimportação de armamentos para emprego no front. Parte das licenças se vincula ao programa Ukraine–U.S. FrankenSAM, descrito pela Reuters como um esforço para criar sistemas de defesa antiaérea combinando plataformas soviéticas existentes na Ucrânia com mísseis ocidentais. O plano também é diplomático. Aloian afirmou que aliados manifestaram interesse em obter tecnologia de defesa da Ucrânia e citou Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, países nórdicos, três países do Oriente Médio e ao menos um país asiático. Ele disse que a prioridade será exportar para os apoiadores mais fortes de Kyiv e que, mais importante que uma “simples exportação” de produtos prontos, será construir joint ventures e outras formas de cooperação, para atrair recursos financeiros, abrir novas cadeias de suprimento de armas para a linha de frente e obter acesso a tecnologias. Nesse desenho, exportar é menos vender e mais construir parcerias industriais e logísticas em rede. Ao mesmo tempo, a dimensão humana da guerra molda o conteúdo político dessa decisão. Em outra reportagem publicada também nesta sexta-feira, a Reuters narrou a trajetória de uma ucraniana deslocada internamente que fugiu repetidas vezes desde 2022 e relatou medo de não ter mais para onde escapar. A agência citou que quase 4 milhões de pessoas estão deslocadas dentro do país e que mais de 5 milhões fugiram para a Europa, enquanto o conflito entra no quinto ano. Esse deslocamento maciço reduz base produtiva local, pressiona finanças públicas e aumenta a urgência de encontrar fontes alternativas de financiamento — contexto em que exportações do setor de defesa ganham papel econômico e simbólico. O centro da disputa internacional segue sendo território. A Reuters lembrou que o controle do Donbas — as regiões de Donetsk e Luhansk — está no coração das conversas de paz mediadas pelos EUA, e que a Rússia exige que a Ucrânia ceda a parcela restante de Donetsk que Moscou não conquistou integralmente. O presidente Volodymyr Zelenskiy reiterou publicamente que não aceita a retirada e enquadrou a questão como parte da independência e como um problema de pessoas, não apenas de terra. Nesse cenário, ao retomar exportações e discutir tributação como mecanismo de legitimação doméstica, Kyiv procura equilibrar duas pressões: sustentar a guerra hoje e preservar capacidade industrial e financeira para negociar amanhã.