Irã Negocia Enquanto Tensão Cresce

Governança Global — Global

Chefe da AIEA afirma na Conferência de Munique que acordo nuclear com o Irã é "urgentemente necessário"; EUA enviam segundo grupo de porta-aviões ao Oriente ...

O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Mariano Grossi, afirmou nesta quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, em declaração na Conferência de Segurança de Munique, que um acordo nuclear entre os Estados Unidos e o Irã é "urgentemente necessário", ao mesmo tempo em que os militares americanos completavam o envio de um segundo grupo de navios de guerra encabeçado por um porta-aviões para o Oriente Médio, elevando o nível de pressão sobre Teerã, conforme reportado pelo The Wall Street Journal, que citou três oficiais americanos.A declaração de Grossi ocorreu durante participação em um painel de alto nível na conferência bávara, onde o diretor-geral da agência nuclear da ONU falou à BBC sobre a urgência das negociações. Em suas palavras, qualquer acordo dependeria fundamentalmente dos delegados americanos e iranianos, mas precisaria representar uma melhoria em relação ao acordo de 2015 — o Plano de Ação Conjunto Abrangente (JCPOA, sigla em inglês) —, que havia sido abandonado unilateralmente pelos EUA em 2018, durante o primeiro mandato de Trump. Grossi sublinhava que, desde então, o programa nuclear iraniano havia avançado significativamente, com o enriquecimento de urânio a níveis de até 60% — bem acima do limite de 3,67% estabelecido pelo JCPOA, e próximo ao limiar de 90% necessário para fabricar armas nucleares.Nas semanas anteriores, Washington e Teerã haviam retomado um formato de negociações indiretas mediadas pelo Sultanato de Omã. Uma rodada de conversas foi realizada em 6 de fevereiro de 2026 em Mascate, com o enviado especial americano Steve Witkoff e o ministro das Relações Exteriores iraniano Abbas Araghchi presentes em quartos separados, com mensagens sendo transmitidas pelos mediadores omanis — numa réplica da fórmula já utilizada em rodadas anteriores de 2025. As negociações buscavam encontrar uma fórmula para limitar o programa nuclear iraniano em troca de alívio de sanções.A situação, entretanto, distava de ser promissora. Conforme relatado pelo Wall Street Journal, o Pentágono havia ordenado que um segundo grupo de combate de porta-aviões se preparasse para ser enviado ao Oriente Médio, num sinal de que os EUA mantinham abertas as opções militares enquanto as negociações prosseguiam. Três oficiais americanos confirmaram a movimentação ao jornal, sem fornecer detalhes sobre o cronograma de desdobramento. Analistas citados pela imprensa descreveram a estratégia americana como de "diplomacia coercitiva": manter a pressão militar como alavanca nas negociações, sinalizando que a opção de força permanecia disponível.O contexto regional tornava o momento particularmente explosivo. O Comitê Norueguês do Nobel havia exigido no mesmo dia 12 de fevereiro a libertação da ativista Narges Mohammadi, ressaltando a dimensão de direitos humanos da crise iraniana. Na mesma Conferência de Munique, o senador americano Lindsey Graham fazia campanha aberta por uma política de mudança de regime no Irã — em posição que contrariava frontalmente o tom aparentemente mais moderado de Rubio. Graham seria uma das vozes mais incisivas da conferência a dizer abertamente que apoiava o fim da República Islâmica.O chefe da AIEA, ao falar sobre a situação técnica do programa nuclear iraniano, descreveu um cenário de grande incerteza. O Irã havia sido declarado em não conformidade com seus compromissos de salvaguardas nucleares pela própria AIEA pela primeira vez desde 2005, após uma votação proposta pelos EUA, Reino Unido, França e Alemanha. Teerã respondera suspendendo a cooperação com a agência e ampliando as atividades de enriquecimento. Grossi alertou que, sem um acordo, o programa nuclear iraniano poderia atingir capacidade de produção de armas em prazo cada vez mais curto.O aliado de Teerã mais poderoso, a República Popular da China, emitia sinais ambíguos. Em sua coletiva de imprensa regular de 12 de fevereiro, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Lin Jian, reiterou a posição de Pequim em favor de uma solução diplomática para o dossier nuclear iraniano, sem endossar as demandas americanas de desmantelamento completo do programa. A Rússia, outra signatária do JCPOA original, também mantinha postura de suporte às negociações, ao mesmo tempo em que se beneficiava da distração americana com o Oriente Médio para consolidar posições na frente ucraniana.Para o Brasil e para a posição diplomática multilateral, a conjuntura representava um desafio de múltiplas camadas. Brasília, que tem historicamente defendido soluções negociadas para crises de não proliferação e se opõe ao uso de força unilateral, encontrava-se diante de uma situação em que a diplomacia estava sendo exercida sob crescente pressão militar. O Itamaraty monitorava o desenvolvimento com atenção, em particular diante da presidência brasileira do G20 de 2024, que havia consolidado a posição do Brasil como mediador em conflitos globais.