Força de paz da ONU no Líbano (UNIFIL) enfrenta riscos de encerramento gradual
Segurança e Paz — Oriente Médio
Missão da ONU perde protagonismo em novos arranjos de segurança enquanto negociações mediadas pelos Estados Unidos redesenham o controle do sul libanês.
A desativação gradual da missão no LíbanoA Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL) encontra-se em um momento de incerteza operacional, com sinais de um esvaziamento de suas funções no sul do país. Em um cenário marcado por tensões persistentes desde 2023, o mandato da missão, que expira ao final de 2026, enfrenta pressões para ser substituído por arranjos de segurança mais restritos e menores. O quadro atual sugere que, independentemente da criação de uma nova força, o controle da região está migrando para modelos de gestão baseados em acordos bilaterais, deixando as Nações Unidas em um papel secundário no monitoramento da fronteira entre o Líbano e Israel.Desafios operacionais e a fragilidade na fronteiraO mandato da UNIFIL, estabelecido originalmente em 1978, enfrenta desafios logísticos e operacionais que se agravaram com a deterioração da segurança regional. A missão, criticada por não conter as hostilidades, lida com a tensão entre forças armadas locais, grupos irregulares e a necessidade de preservar a soberania libanesa na linha de fronteira conhecida como Linha Azul. A dificuldade em monitorar o terreno em meio a violações frequentes do espaço aéreo e a disparos de projéteis, conforme reportado pelos próprios observadores da ONU, evidencia as limitações da força para garantir um ambiente de estabilidade em uma zona devastada por conflitos prolongados.O limite entre o monitoramento e a aplicação da pazA eficácia da presença militar no terreno é frequentemente questionada devido ao descompasso entre as expectativas internacionais e o mandato original da força. A Resolução 1701, adotada pelo Conselho de Segurança da ONU em 2006 para encerrar o conflito armado entre Israel e o Hezbollah, estabeleceu diretrizes ambiciosas, como a retirada de forças israelenses, a implementação de uma zona desmilitarizada entre o rio Litani e a fronteira, e o desarmamento de grupos armados na área. Contudo, as atribuições operacionais da UNIFIL restringem-se ao monitoramento, ao reporte de violações e à assistência técnica, o que a torna incapaz de impor tais condições de forma coercitiva por falta de autoridade de imposição. Essa limitação técnica pavimentou o caminho para uma mudança de paradigma em que diversos atores internacionais passaram a priorizar a desativação da missão. Especialistas apontam que a sugestão para a desativação da UNIFIL reflete uma decisão política de diversos atores, alinhada à posição israelense de operar sem um órgão internacional de supervisão direta capaz de relatar as movimentações militares no território libanês.A exclusão estratégica e o risco de vácuo de segurançaA exclusão da UNIFIL das negociações diretas mediadas pelos Estados Unidos também revela uma intenção deliberada em restringir a visibilidade internacional sobre a situação no Líbano. O novo esquema proposto pelos Estados Unidos, o framework agreement (acordo-quadro) de 26 de junho de 2026, estabelece zonas piloto controladas pelo Exército Libanês, retirando da ONU o papel mediador ou de monitoramento por um órgão neutro capaz de documentar eventuais violações das normas internacionais e do próprio cessar-fogo. Analistas do International Crisis Group alertam que essa estratégia, movida pelo ceticismo de Washington e Tel Aviv, cria um perigoso vácuo institucional, pois a ausência de um mediador neutro pode dificultar a gestão de crises cotidianas e elevar o risco de um conflito descontrolado antes que uma nova estrutura de segurança seja plenamente estabelecida.O histórico do Brasil e as perspectivas de sucessãoO Brasil, que possui um longo histórico de engajamento na UNIFIL, notadamente pela liderança exercida por anos no comando da Força-Tarefa Marítima (MTF) da missão, observa com atenção a reconfiguração deste teatro de operações. Enquanto que cabe ao Conselho de Segurança das Nações Unidas analisar a extensão ou a modificação dos termos desta presença, surgem alternativas de substituição, como o possível ingresso da Organização das Nações Unidas para a Supervisão da Trégua (UNTSO) ou a formação de forças multinacionais com efetivos significativamente reduzidos, variando entre 900 e 3.000 soldados. O futuro da estabilidade na região depende agora da capacidade do Conselho de Segurança em costurar um acordo que evite a interrupção total das atividades de monitoramento, essencial para sustentar qualquer compromisso de paz duradouro entre as partes envolvidas.