Primeira rodada das negociações trilaterais EUA-Rússia-Ucrânia em Abu Dhabi termina com...
Segurança e Paz — Global
Em 23 de janeiro de 2026, delegações da Rússia, Ucrânia e EUA realizaram as primeiras negociações trilaterais desde o início da invasão, em Abu Dhabi. O prim...
A sexta-feira, 23 de janeiro de 2026, ficará registrada na história diplomática como a data em que representantes da Rússia, da Ucrânia e dos Estados Unidos se sentaram pela primeira vez à mesma mesa desde a invasão russa de fevereiro de 2022 — quase quatro anos de guerra. As conversas trilaterais aconteceram no Palácio Al Shati, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, anfitrião escolhido pela sua reputação de neutralidade e pelos canais de comunicação que Riad e Abu Dhabi mantêm com Moscou. A reunião encerrou o primeiro de dois dias previstos com um tom que autoridades americanas descreveram como "produtivo" e que, ao sábado, seria ampliado para "superou as expectativas", conforme relatou a CNN com base em funcionários do governo dos EUA.A delegação russa em Abu Dhabi era liderada pelo Almirante Igor Olegovich Kostyukov, chefe da Diretoria de Inteligência Principal (GRU) das Forças Armadas da Rússia, conforme confirmou o Conselho de Relações Exteriores americano (CFR). A delegação ucraniana era chefiada por Rustem Umerov, secretário do Conselho Nacional de Segurança e Defesa, e incluía o chefe do Estado-Maior General, Andrii Hnatov, e o vice-chefe do escritório presidencial de Zelensky, Kyrylo Budanov. Os EUA foram representados pelo enviado especial Steve Witkoff e pelo genro do presidente, Jared Kushner — o mesmo duo que, na noite anterior, havia se reunido com Vladimir Putin no Kremlin por mais de três horas num encontro que um auxiliar do presidente russo, Yuri Ushakov, descreveu como "excepcionalmente substantivo, construtivo e francamente confidencial", conforme noticiou a Agência Associated Press.As conversas trilaterais eram, na prática, o culminar de meses de diplomacia silenciosa e de dois dias de intensa movimentação que se iniciou ainda em Davos, na Suíça. Na quinta-feira, 22 de janeiro, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky havia se reunido com Trump nas margens do WEF — encontro no qual o líder ucraniano declarou que as garantias de segurança para a Ucrânia estavam "100% prontas para serem assinadas", mas que a questão territorial continuava em aberto. Horas depois, Witkoff e Kushner pousaram em Moscou e se reuniram com Putin até as primeiras horas da madrugada de sexta-feira. O kremlin, ao fim do encontro, divulgou uma posição que foi lida como de abertura à negociação, mas ao mesmo tempo intransigente em sua essência: sem resolução da questão territorial conforme "a fórmula acordada em Anchorage" — referência a uma cúpula entre Trump e Putin no Alasca em agosto de 2025 — "não há esperança de um acordo de longo prazo", segundo o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, citado pela agência TASS e pela NBC News.O "único tema" a que Witkoff havia se referido em Davos na véspera era, conforme confirmou o presidente ucraniano Zelensky antes do início das conversas em Abu Dhabi, a questão do Donbas. "A questão do Donbas é fundamental", declarou Zelensky em mensagem via WhatsApp a jornalistas ucranianos, conforme relatou a ABC News. "Será discutida, e as modalidades de cada parte serão abordadas em Abu Dhabi." A Rússia exige que as forças ucranianas se retirem completamente da região — o que Kyiv rejeita como uma rendição —, enquanto a Ucrânia insiste em garantias de segurança robustas como precondição para qualquer acordo territorial. O Donbas é formado pelas regiões de Donetsk e Lugansk, coração industrial da Ucrânia, com população de língua russa significativa e cujo controle parcial a Rússia busca consolidar desde 2014.Ao fim do primeiro dia de conversas em Abu Dhabi, o chefe negociador ucraniano, Rustem Umerov, publicou na plataforma X que o encontro havia focado nos "parâmetros para encerrar a guerra" e na "lógica do processo de negociação visando uma paz justa e duradoura", e que Kyiv "aprecia a mediação americana". As conversas prosseguiriam no sábado, 24 de janeiro, com a presença de membros adicionais das delegações, incluindo o chefe do Estado-Maior e o vice-chefe da inteligência militar ucraniana. A próxima rodada de negociações foi agendada para 1° de fevereiro, novamente em Abu Dhabi, conforme informaram autoridades americanas.O cenário dramático das negociações ganhou outro elemento com um acontecimento que poderia parecer quase simbólico, não fosse trágico: horas após o encerramento do primeiro dia de conversas em Abu Dhabi, mísseis e drones russos voltaram a atacar Kyiv. O prefeito da capital ucraniana, Vitali Klitschko, informou que pelo menos 11 pessoas foram feridas no ataque, duas delas em estado grave. A Força Aérea Ucraniana acionou as defesas antiaéreas da capital, e jornalistas da CNN presentes em Kyiv relataram ter ouvido explosões. O ataque reforçou o padrão que vinha sendo observado ao longo das negociações: a diplomacia e os bombardeios coexistem, e os russos não interrompem suas operações militares em nenhum estágio das conversações.A posição americana era de otimismo funcional. Ao retornar de Davos a bordo do Air Force One, Trump disse a jornalistas que acreditava que ambas as partes "querem fazer um acordo" e que concessões da Rússia estavam "na mesa". Witkoff, ao publicar imagem das conversas trilaterais no sábado, classificou as negociações como "muito construtivas" e afirmou que "o presidente Trump e toda sua equipe estão dedicados a trazer paz a esta guerra". Analistas, porém, alertavam para o abismo entre o otimismo retórico americano e a realidade de um impasse territorial que a Rússia não dá sinais de abandonar: Peskov reiterou que "a posição da Rússia é bem conhecida — a Ucrânia e as Forças Armadas Ucranianas devem sair do Donbas e se retirar de lá", segundo a NBC News.Os emiradenses, por sua vez, celebraram o papel de anfitriões. O presidente dos Emirados Árabes Unidos, xeque Mohamed bin Zayed Al Nahyan, recebeu pessoalmente os chefes de delegação antes do início das conversas, num gesto de prestígio político que confirmou a posição dos EAU como mediador de confiança entre potências rivais — papel que Abu Dhabi vem cultivando desde a normalização de relações com Israel nos Acordos de Abraão de 2020. Um porta-voz do governo emiradense classificou as conversas como tendo ocorrido em "atmosfera positiva e construtiva" e com engajamento direto entre representantes ucranianos e russos sobre elementos do arcabouço de paz proposto pelos EUA.