BBC censura "Free Palestine" em discurso no BAFTA

Governança Global — Global

Emissora britânica retira do ar, em sua transmissão com atraso, o trecho do discurso do cineasta Akinola Davies Jr. no BAFTA em que ele diz "Free Palestine"

A BBC enfrentou nesta segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026, uma onda de críticas e acusações de censura depois que a emissora pública britânica editou, de sua transmissão do British Academy Film Awards (BAFTA) com atraso de duas horas, a parte do discurso de aceitação do prêmio do cineasta britânico-nigeriano Akinola Davies Jr. na qual ele disse "Free Palestine" — ao mesmo tempo em que deixou no ar um palavrão que apareceu no mesmo programa. O incidente, registrado e divulgado inicialmente pela Al Jazeera em matéria publicada em 23 de fevereiro, rapidamente se tornou um caso de debate público sobre liberdade de imprensa, neutralidade editorial e o tratamento dado pela mídia britânica ao conflito em Gaza.Davies Jr., que recebeu o prêmio de Melhor Estreia de Escritor, Diretor ou Produtor Britânico por seu filme "My Father's Shadow", encerrou seu discurso de aceitação ao vivo com palavras de solidariedade a "aqueles que estão sob ocupação, ditadura, perseguição e aqueles que estão passando por genocídio". Em seguida, declarou: "Para aqueles que estão assistindo em casa, guardem as memórias de seus entes queridos, guardem suas histórias ontem, hoje e para sempre. Para a Nigéria, para Londres, Congo, Sudão, Free Palestine." As palavras "Free Palestine" foram ao ar na cerimônia ao vivo, mas estavam ausentes quando a BBC transmitiu o evento com atraso de duas horas em seu canal terrestre.A omissão foi percebida por espectadores e por grupos de advocacy que acompanhavam a transmissão, e rapidamente gerou reações nas redes sociais e na imprensa especializada. A Al Jazeera documentou as acusações de censura provenientes tanto de grupos pró-Palestina quanto de organizações de liberdade de imprensa — entre elas o sindicato Nacional de Jornalistas do Reino Unido (NUJ) e o grupo Campaign for Press and Broadcasting Freedom. A Cineasta e ativista Priya Atwal declarou à Al Jazeera que a omissão era "um retrato perfeito de como a mídia britânica favorece narrativas que silenciam o povo palestino."O elemento que tornou o caso ainda mais politicamente sensível foi o contraste explicitado pela Al Jazeera e pela imprensa especializada: um palavrão que havia aparecido no mesmo programa permaneceu audível na transmissão da BBC, enquanto as palavras "Free Palestine" foram removidas. A justaposição sugeria que a emissora havia feito uma escolha editorial explícita de censurar um posicionamento político sobre a Palestina, e não apenas aplicado sua política padrão de atraso para evitar conteúdo inapropriado.A BBC respondeu às críticas através de comunicado à mídia britânica, afirmando que a transmissão com atraso "não estava refletindo a cerimônia ao vivo em sua totalidade" e que "a BBC tem o dever de ser imparcial em coberturas de questões políticas controversas." A emissora justificou a edição como parte de suas "diretrizes editoriais aplicadas de forma consistente", mas não explicou por que o palavrão havia sido mantido enquanto o conteúdo político havia sido removido. A resposta foi classificada por críticos como insatisfatória e evasiva.O caso se inseria num contexto mais amplo de debate sobre como a mídia britânica e ocidental vinha cobrindo o conflito em Gaza, que havia entrado em seu terceiro ano desde o ataque do Hamas em outubro de 2023. Organizações de direitos humanos e grupos jornalísticos continuavam a documentar restrições editoriais a conteúdo pró-Palestina em emissoras e publicações britânicas e americanas, alegando que havia um padrão sistemático de tratamento assimétrico em comparação com outras causas humanitárias. A Al Jazeera, ela própria um ator diretamente envolvido no conflito de Gaza — com vários de seus jornalistas mortos ou ameaçados durante a guerra —, foi explícita em sua cobertura crítica do episódio.Para o Brasil, o incidente da BBC no BAFTA era relevante como caso de estudo em liberdade de imprensa, regulação da mídia e cobertura de conflitos internacionais. O governo Lula reconheceu o Estado da Palestina em 2024 e havia adotado posições críticas em relação à condução das operações militares israelenses em Gaza no Conselho de Segurança da ONU. O incidente britânico reforçava a percepção de que havia um debate profundo no Ocidente sobre os limites entre imparcialidade jornalística e silenciamento político de vozes dissidentes — um debate que o Brasil acompanhava de perto dada sua postura ativa em foros multilaterais sobre o conflito.