Wang Yi Disputa Ocidente na MSC
Governança Global — Ásia e Oceania
Ministro chinês discursa em Munique propondo Iniciativa de Governança Global de Xi como alternativa ao multilateralismo ocidental; encontra-se com Merz, Rubi...
O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, ocupou o centro das atenções no segundo e penúltimo dia da 62ª Conferência de Segurança de Munique neste sábado, 14 de fevereiro de 2026, com um discurso de alto impacto na sessão "China no Mundo" — imediatamente após a fala do secretário de Estado americano Marco Rubio — e com uma agenda bilateral de reuniões que incluiu o chanceler alemão Friedrich Merz, além de diplomatas de vários países europeus, representando a mais abrangente ofensiva diplomática de Pequim em solo europeu em anos.O discurso de Wang Yi na MSC, cuja íntegra foi publicada pelo Ministério das Relações Exteriores da China sob o título "Unindo forças para colocar o navio da história no rumo certo", foi estruturado em torno da apresentação da Iniciativa de Governança Global (IGG) lançada pelo presidente Xi Jinping em 2025. Wang argumentou que a situação internacional havia se tornado mais volátil e interligada ao longo do último ano, com a "lei da selva" e o unilateralismo se tornando prevalentes. Na avaliação chinesa, a humanidade havia chegado a uma nova encruzilhada na causa da paz e do desenvolvimento.A proposta da IGG, descrita por Wang como "a maior base de consenso das nações do mundo", defendia a reforma da governança global a partir de cinco princípios: igualdade soberana, Estado de Direito internacional, multilateralismo, abordagem centrada nas pessoas e ações concretas. Na prática, a iniciativa posicionava a China como a principal defensora de um sistema multilateral baseado na ONU em face do que Pequim via como o enfraquecimento dessa ordem pela atual administração americana. "Todas as iniciativas propostas e todas as ações tomadas pela China no cenário internacional visam defender o sistema internacional com as Nações Unidas em seu núcleo", afirmou Wang.De forma notável, o discurso de Wang veio imediatamente após o de Rubio — e os dois pronunciamentos foram lidos pela imprensa internacional como um embate simbólico entre dois projetos alternativos de ordem global. Enquanto Rubio propunha a reforma das instituições multilaterais sob liderança ocidental, Wang oferecia a IGG como um quadro alternativo centrado no papel da ONU e na igualdade soberana. Analistas presentes na conferência observaram a precisão cirúrgica de Wang ao responder, sem citar diretamente, às posições americanas: ao defender que "o monopolio do poder global por um pequeno número de países é impopular", Wang estava respondendo diretamente à noção americana de liderança ocidental proposta por Rubio.Sobre as relações China-EUA, Wang foi ao mesmo tempo conciliatório e firme. Elogiou Trump por ter demonstrado respeito ao presidente Xi Jinping e ao povo chinês, e afirmou que havia "dois caminhos diferentes" para o relacionamento bilateral: cooperação ou confronto. Sobre o primeiro caminho, Wang disse ser "otimista" sobre as perspectivas da relação; sobre o segundo, advertiu que buscar o "desacoplamento", se opor à China "de forma reflexa" e pisar nas "linhas vermelhas" chinesas — incluindo Taiwan — levaria provavelmente os dois países "na direção do conflito". Rubio, por sua vez, havia descrito como "má prática geopolítica" não se comunicar com a China para gerenciar as diferenças.A reunião bilateral entre Wang Yi e o chanceler Friedrich Merz, realizada nas margens da conferência no mesmo sábado, foi descrita pelo Ministério das Relações Exteriores chinês como o encontro mais politicamente significativo da visita europeia de Wang. Wang transmitiu a Merz as "calorosas saudações" dos líderes chineses e elogiou o discurso de abertura de Merz como um reflexo das "expectativas da Alemanha e da Europa por autonomia estratégica e autossuficiência". A China, disse Wang, apoia a Alemanha a desempenhar um papel maior nesse sentido. Wang também pediu que a Alemanha se tornasse uma "âncora estabilizadora" para as relações estratégicas China-Europa, num sinal de que Pequim enxergava Berlim como um ponto de apoio central para sua estratégia de reaproximação com o continente europeu.Merz, por sua vez, afirmou que a Alemanha era "beneficiária e apoiadora da globalização econômica" e comprometeu-se a se opor ao protecionismo. Revelou que estava preparando visita oficial à China para o final de fevereiro — confirmada posteriormente para os dias 25 e 26. Dados divulgados pela agência estatística alemã Destatis revelavam que as exportações alemãs para os EUA haviam caído 9,3% em 2025, o que empurrava Berlim a buscar no mercado chinês uma alternativa ao mercado americano.A dimensão estratégica do discurso de Wang sobre a questão japonesa também foi notada: ao comparar o tratamento pós-guerra da história do fascismo pela Alemanha e pelo Japão, com o Japão sendo criticado por "ainda cultuar criminosos de guerra de classe A num santuário", Wang gerou aplausos na sala — mas também a formalização de um demarche diplomático por parte do Japão, que divulgou comunicado protestando contra as declarações do chanceler chinês.