Relatório da ONU expõe escalada fatal de gangues no Haiti

Segurança e Paz — América Central e Caribe

Especialista da ONU denuncia imposição de sofrimento extremo por grupos armados, enquanto missão internacional busca estabilizar o país caribenho.

Escalada de violência assola bairros de Porto PríncipeUm novo relatório do Escritório Integrado das Nações Unidas no Haiti (BINUH) revelou que as gangues armadas intensificaram o terror na capital, Porto Príncipe, resultando na morte de pelo menos 613 pessoas até 31 de julho de 2026. O documento, divulgado nesta quinta-feira (06), detalha que outros 375 indivíduos sofreram ferimentos graves em apenas dois bairros da cidade durante um período de quatro meses e meio. William O'Neill, especialista independente de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Haiti, declarou que os grupos criminosos impõem um sofrimento intencional e extremo a civis que se encontram em áreas vulneráveis. Essa dinâmica de violência constante e intimidação forçou mais de 18.000 moradores a abandonarem suas residências em busca de abrigos seguros.Mulheres e crianças figuram entre os principais alvosAs estatísticas do documento oficial demonstram que mais de um terço das vítimas recentes não possuía qualquer associação com grupos rivais. O levantamento contabiliza 111 mulheres e 77 crianças assassinadas durante os confrontos urbanos. Os monitores de direitos humanos da ONU documentaram abusos sistemáticos, apontando o estupro de mais de 176 mulheres e meninas por membros de gangues locais. O relatório conclui que esses crimes sexuais funcionam frequentemente como um instrumento de punição coletiva contra residentes de zonas controladas por facções oponentes. A impunidade generalizada agrava drasticamente a vulnerabilidade da população civil, que convive com a total supressão de direitos básicos.Execuções sumárias refletem a brutalidade das facçõesO domínio territorial exercido pelas gangues estabeleceu um ambiente de contínua vigilância e retaliação arbitrária na região caribenha. Em um dos casos registrados, dois adolescentes de 17 anos foram executados a tiros sob a acusação de repassarem informações a um grupo rival. O relatório também descreve o assassinato de um homem de 71 anos, morto logo após solicitar alimentos a um líder criminoso em sua comunidade. Em outro episódio violento ocorrido no mês de junho, após uma partida de futebol entre Haiti e Escócia pela Copa do Mundo de 2026, um ataque coordenado por franco-atiradores deixou 61 mortos, incluindo sete crianças em uma aglomeração civil. Tais eventos sinalizam a ausência de amparo do Estado em diversas instâncias.Transição de missões internacionais busca restaurar a ordemA deterioração profunda do quadro de segurança ocorre em um momento crítico de mudança na resposta da diplomacia internacional. A Missão Multinacional de Apoio à Segurança, anteriormente endossada pela ONU e liderada pelo Quênia, encerrou suas atividades no primeiro semestre de 2026 para dar lugar à nova Força de Supressão de Gangues (GSF). Essa nova coalizão internacional atua de forma rigorosamente coordenada com a Polícia Nacional do Haiti e as forças de segurança estatais para retomar o controle de infraestruturas estratégicas. O êxito dessa empreitada é considerado vital para interromper o fluxo de armamentos ilícitos e restabelecer o Estado de Direito no país.O papel histórico e atual da diplomacia brasileiraO persistente cenário de instabilidade no Haiti atrai a constante atenção das chancelarias da América Latina, região onde o Brasil consolidou um amplo histórico de cooperação. O país sul-americano chefiou o componente militar da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH) entre 2004 e 2017 e, desde 2012, concede vistos humanitários especiais para fomentar a migração segura de cidadãos haitianos. A manutenção do diálogo, o incentivo a eleições democráticas e o apoio ao desenvolvimento institucional permanecem como pilares da política externa brasileira para o Caribe. Como a comunidade internacional poderá garantir que as recentes missões de paz não reproduzam vulnerabilidades do passado na complexa rota pela estabilização?