Brasil e Espanha lideram esforço global contra a fome na ONU
Governança Global — Global
Aliança global busca acelerar políticas de combate à pobreza até 2030
A transição da Aliança para a implementação práticaAinda repercutindo os acontecimentos da semana de alto nível da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, o Brasil e a Espanha consolidaram seu papel como líderes na coordenação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. O evento, realizado nesta última semana, marcou uma mudança de paradigma fundamental na governança internacional do setor. Diferente de fases anteriores focadas apenas em compromissos políticos, a Aliança orienta agora seus esforços para a implementação em larga escala de políticas públicas nacionais. Esse novo direcionamento busca conectar prioridades estabelecidas pelos próprios países a assistência técnica comprovada, transformando metas globais em resultados concretos nos quatro anos restantes para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030.O impacto dos desafios geopolíticos e climáticos Embora a fome tenha registrado queda pelo terceiro ano consecutivo, quase dois bilhões de pessoas ainda vivem sob insegurança alimentar moderada ou grave, uma vez que o avanço da agenda de segurança alimentar segue enfrentando obstáculos severos em um cenário global de tensões. Durante o evento, o Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e diversos líderes globais advertiram que a convergência de conflitos armados, choques climáticos recorrentes e a persistência de preços elevados dos alimentos colocam em risco todo o progresso já alcançado. A urgência de uma resposta coordenada é agravada pela pressão sobre os recursos destinados ao desenvolvimento socioeconômico global, visto que a crescente competição por orçamentos públicos em países doadores e a necessidade de financiar a reconstrução de zonas de conflito pressionam severamente os recursos disponíveis e limitam a margem de manobra para a cooperação internacional contra a fome no longo prazo. Dessa forma, a Aliança entende que precisa atuar como um amortecedor eficiente para evitar a reversão de ganhos sociais recentes.Mecanismos de financiamento e colaboração institucionalA viabilização econômica das políticas de erradicação da fome também depende da articulação entre o setor público e instituições financeiras internacionais. O Ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome do Brasil, Wellington Dias, defendeu um modelo de financiamento colaborativo que integre bancos multilaterais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Mundial, a fundos filantrópicos e doadores privados. O objetivo central é reduzir o custo de crédito para pequenos produtores e agricultores familiares, replicando programas bem-sucedidos como o brasileiro Acredita no Primeiro Passo. O presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento reforçou esse compromisso ao detalhar aportes multibilionários alinhados às operações da Aliança, priorizando a eficácia na execução desses recursos em detrimento do simples aumento de fundos burocráticos.Resultados práticos e modelos de cooperaçãoOs resultados preliminares da Aliança já demonstram a viabilidade do modelo proposto em diversas frentes nacionais. Atualmente, o mecanismo de suporte da iniciativa monitora 21 programas apoiados em 19 países, promovendo roteiros de implementação que unem governos, agências da ONU e a sociedade civil. Na Etiópia, por exemplo, investimentos alinhados à Aliança já atingem cerca de cinco milhões de pequenos agricultores, integrando práticas de nutrição comunitária com o programa nacional Yelemat Tirufat. De modo similar, o trabalho conjunto desenvolvido no Haiti, envolvendo o governo local e instituições internacionais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Banco Mundial e o Programa Mundial de Alimentos (WFP), mostra como o alinhamento de estratégias de transferência de renda, evitando a fragmentação de projetos isolados, pode criar sistemas de proteção social mais eficaz ao permitir que as transferências de renda sejam entregues de forma contínua e previsível. Esse modelo também fortalece a capacidade institucional do Estado haitiano em identificar as famílias mais vulneráveis e conectar o apoio emergencial com ações de desenvolvimento de longo prazo, tornando o sistema de proteção social muito mais resiliente a choques externos.A prioridade da política externa brasileiraO engajamento brasileiro nesta agenda reflete a centralidade do combate à fome na atual projeção internacional do país. Iniciada sob a presidência brasileira do G20, a Aliança Global tornou-se um dos principais legados da diplomacia do país, sendo utilizada como uma plataforma para conectar o know-how brasileiro em políticas sociais aos desafios enfrentados por outras nações em desenvolvimento. O Brasil entende que a sustentabilidade da paz mundial está intrinsecamente ligada à eliminação das disparidades de acesso aos alimentos, tratando a fome não apenas como um problema nacional, mas como uma falha sistêmica na arquitetura econômica global que deve ser resolvida por meio da execução acelerada de políticas coordenadas. Agora, a Aliança prepara a divulgação de um relatório detalhado de progresso, a ser apresentado em sua segunda sessão de alto nível, marcada para 18 de novembro de 2026, com um diagnóstico preciso da situação global para orientar os próximos passos necessários para garantir a segurança alimentar das populações mais vulneráveis até o fim desta década.