ONU sedia debate para escolher novo Secretário Geral
Governança Global — Global
Assembleia Geral acolhe o início do processo com seis candidatos, forte presença latino-americana e busca por inédita liderança feminina.
Início da disputa na Assembleia GeralA Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) está se organizando para receber amanhã (23) o primeiro debate formal entre os candidatos à Secretaria-Geral, focado na sucessão do atual líder, António Guterres. O encontro ocorre em Nova York e apresenta seis diplomatas na corrida pelo mais alto cargo do multilateralismo global. A atual eleição destaca-se por contar com quatro mulheres e dois homens, o que levanta a possibilidade inédita de uma liderança feminina na organização, um pleito antigo de diversos Estados-membros. O pleito também é marcado pela expressiva presença da América Latina e do Caribe, regiões que concentram cinco das seis candidaturas cadastradas, evidenciando uma articulação coordenada do Sul Global para ocupar a liderança.Base legal e papel do Conselho de SegurançaO trâmite de seleção da próxima chefia da organização é orientado pelo Artigo 97 da Carta das Nações Unidas e pela recente Resolução 79/327, adotada em 5 de setembro de 2025. Esse novo marco normativo objetiva ampliar a transparência do processo, historicamente criticado, ao garantir a transmissão global do debate e a participação de representantes da sociedade civil. Após o evento público, a fase decisória avança para o Conselho de Segurança (CS), que iniciará consultas sigilosas nos dias 24 e 30 de julho. Nessas votações preliminares, os quinze membros do CS registrarão suas preferências com as opções "encorajo", "não encorajo" ou "nenhuma opinião". A dinâmica continuará até que um nome obtenha nove votos favoráveis, sem vetos dos cinco membros permanentes, para ser recomendado à Assembleia Geral e iniciar seu mandato em 1º de janeiro de 2027.Perfil e apoio das candidaturas oficiaisA lista de postulantes engloba distintas trajetórias políticas e institucionais. A ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, entra na disputa com o apoio formal de Brasil e México, amparada por sua atuação anterior como Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos. A equatoriana María Fernanda Espinosa, ex-presidente da Assembleia Geral, foi indicada por Antígua e Barbuda e defende uma reforma estrutural imediata para sanar a crise financeira do órgão. O argentino Rafael Mariano Grossi, atual diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), concorre ao cargo apostando em sua experiência em segurança nuclear. A ex-vice-presidente da Costa Rica, Rebeca Grynspan, utiliza seu histórico na Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) para propor maior agilidade administrativa. A representante permanente da Guiana na ONU, Carolyn Rodrigues-Birkett, foca sua plataforma na governança global inclusiva. O ex-presidente do Senegal, Macky Sall, foi primeiramente indicado pelo Burundi e concentra-se na defesa da ampliação da representatividade africana.Geopolítica da sucessão e desafios futurosHistoricamente, a ONU adota um costume diplomático não escrito de alternar a sua liderança entre os diferentes continentes para assegurar uma representatividade global equitativa. Após duas décadas sob o comando contínuo de representantes asiáticos e europeus, a América Latina e o Caribe reivindicam a vaga com base no argumento de possuírem o maior tempo de espera na rotação, visto que a região não lidera a entidade desde 1991. Essa justificativa histórica explica a expressiva concentração de cinco candidaturas latino-americanas e caribenhas no pleito atual. Simultaneamente, o continente africano também busca o seu espaço nessa alternância com a postulação do senegalês Macky Sall, ao recordar que a última gestão da África encerrou-se em 2006. Esse cenário reflete um forte alinhamento voltado ao fortalecimento dos interesses do Sul Global nas instâncias de deliberação. Independentemente da origem regional do vencedor, a próxima gestão herdará uma ONU pressionada por urgências estruturais e diplomáticas, e enfrentará o desafio de restaurar a legitimidade do órgão, equacionar o déficit orçamentário e arbitrar as tensões entre as potências do Conselho de Segurança.