ONU projeta aquecimento global de 1,8ºC e exige ação climática

Meio Ambiente — Global

Relatório do PNUMA aponta que o limite de 1,5ºC do Acordo de Paris será rompido, exigindo estratégias emergenciais de mitigação e remoção de carbono.

Relatório confirma o rompimento do limite de temperatura globalO Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) divulgou, em 1º de setembro de 2026, o documento "Limiting Overshoot", atestando que a temperatura do planeta ultrapassará o limite de 1,5ºC estipulado pelo Acordo de Paris. O estudo elaborado pela agência da Organização das Nações Unidas (ONU) sinaliza que o cenário mais otimista projeta um pico de aquecimento de 1,8ºC nas próximas décadas, enquanto outras projeções apontam para elevações superiores a 2,3ºC. O secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou que as recentes ondas de calor extremas e inundações são apenas os primeiros sinais da crise, cobrando das nações uma expansão emergencial da ambição climática. Essa constatação força a comunidade internacional a adotar uma nova estratégia, baseada em aceitar a ultrapassagem temporária, estabilizar o pico térmico e promover um declínio contínuo das temperaturas nos anos seguintes.Consequências físicas e projeções para os ecossistemasA superação da meta climática carrega desdobramentos críticos para a geografia global e para a segurança alimentar. Um aquecimento sustentado na faixa de 3ºC, por exemplo, causaria a perda de mais de 25% da massa das geleiras até 2100, elevando o nível dos oceanos em até 13 centímetros e reduzindo a produção agrícola em cerca de 14% até o ano de 2050, caso não haja uma adaptação eficiente. O documento alerta para a iminência de pontos de não retorno ecológicos, englobando a degradação acelerada da Floresta Amazônica e a desestabilização das correntes do Oceano Atlântico. Tais eventos extremos já impactam diretamente o planejamento estratégico de diversas nações, como demonstrou o presidente de Palau, Surangel Whipps Jr., ao sediar a reunião do Fórum das Ilhas do Pacífico, ocasião em que classificou o relatório como um momento decisivo para a diplomacia e para a sobrevivência de países insulares.Estratégias conjuntas de mitigação e remoção de carbonoPara conter o aquecimento no teto de 1,8ºC, o PNUMA recomenda a via de ultrapassagem seguida de declínio, exigindo a associação indissociável entre o corte drástico na emissão de gases e o avanço da Remoção de Dióxido de Carbono (RDC). A diretora-executiva do programa, Inger Andersen, reforça que a transição energética global precisa abandonar os combustíveis fósseis e abraçar as fontes renováveis de forma muito mais célere. Essa dinâmica inclui a redução urgente das emissões de metano e a preservação de biomas estratégicos por parte dos governos. O Brasil desempenha um papel natural de protagonismo nesse eixo ambiental, sobretudo por abrigar a maior floresta tropical do mundo e por sua matriz elétrica predominantemente limpa, fatores que conferem ao país peso diplomático na defesa por maiores financiamentos internacionais. O relatório enfatiza que alcançar emissões líquidas nulas é apenas uma etapa intermediária rumo a emissões líquidas negativas, sendo a RDC um complemento rigoroso aos cortes de poluição.Governança climática e os desafios para as próximas conferênciasO avanço da governança multilateral sobre o clima encontra seu próximo grande teste diplomático na 31ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP31). A conferência será coorganizada por Austrália e Turquia, ao lado de nações do Pacífico, exigindo forte alinhamento entre as principais economias do mundo para evitar omissões estatais. O ministro australiano das Mudanças Climáticas, Chris Bowen, e o presidente designado da COP31, Murat Kurum, enfatizaram que a cooperação deve priorizar a resiliência urbana e a eletrificação global, garantindo o fluxo de capital aos Estados vulneráveis. A necessidade de conciliar políticas internas de transição justa com metas internacionais mais rígidas será o pilar das negociações. Diante do colapso parcial das premissas originais do Acordo de Paris, resta à comunidade internacional definir como gerenciar essa nova fronteira diplomática antes que as perdas se tornem inteiramente irreversíveis?