Congo: em Goma capturada, M23 restaura luz e instala administração paralela

Segurança e Paz — África

Em 30 de janeiro de 2026, o M23 restaurou luz e telefonia em Goma e instalou centenas de administradores — sinalizando ocupação duradoura. A ofensiva sobre B...

Na quinta-feira, 30 de janeiro de 2026, o quadro que se desenhava no leste da República Democrática do Congo (RDC) combinava a brutalidade de uma conquista militar em curso com os primeiros sinais — igualmente inquietantes — de que o M23 e a Aliança Fleuve Congo (AFC) estavam construindo as estruturas de um Estado paralelo sobre as ruínas do Estado congolês. Em Goma, tomada entre 26 e 27 de janeiro após uma ofensiva que matou entre 900 e 2.900 pessoas e deslocou mais de 700.000, segundo estimativas da ONU e do governo congolês respectivamente citadas pelo Africa Center for Strategic Studies, o M23 havia restaurado eletricidade e telecomunicações em partes da cidade e reaberto as travessias fronteiriças com Ruanda — num sinal de que a logística da ocupação estava sendo preparada para perdurar, conforme registrou a Al Jazeera em 29 de janeiro. Centenas de administradores haviam sido preparados para gerir a cidade. O líder da coalizão M23-AFC, Corneille Nangaa — ex-presidente da comissão eleitoral congolesa que havia rompido com o governo Tshisekedi em 2023 —, havia indicado que o grupo planejava avançar sobre Bukavu e posteriormente em direção a Kinshasa, conforme documentou o AEI (American Enterprise Institute) com base em declarações públicas de líderes do movimento.A situação humanitária em Goma permanecia catastrófica. O Programa Mundial de Alimentos havia reportado escassez severa de alimentos, agravada por falta de energia, ausência de água e o fechamento do aeroporto, que havia bloqueado o acesso de ajuda humanitária. Instalações médicas tanto em Goma quanto nas cercanias estavam sobrecarregadas com um número massivo de vítimas de tiros e com escassez de suprimentos, conforme registrou a Al Jazeera. A prisão central de Goma havia sido incendiada durante a tomada, com mais de 4.000 detentos fugindo do presídio de Muzenze, conforme reportou a Al Jazeera. Organizações de direitos humanos, incluindo a Human Rights Watch, documentaram relatos de violência sexual sistemática e execuções extrajudiciais durante e após a tomada da cidade. A representante especial da ONU no Congo, Bintou Keita, havia dito ao Conselho de Segurança que o M23 estava usando civis como escudos humanos durante os combates — acusação que o grupo rejeitou formalmente, enquanto seu porta-voz dizia que havia permitido que oficiais do Exército Nacional Congolês (FARDC) deixassem Goma de barco pelo Lago Kivu em direção a Bukavu após negociações, conforme registrou a Al Jazeera.O desenvolvimento mais alarmante na quinta-feira 30 de janeiro era precisamente o avanço do M23 em direção a Bukavu. As forças da AFC, apoiadas pelas Forças de Defesa da Ruanda (RDF), tinham iniciado em 29 de janeiro uma ofensiva a partir da costa ocidental do Lago Kivu em direção à capital do Kivu do Sul, a cerca de 200 km de Goma, conforme registrou a Al Jazeera. Pânico entre os moradores de Bukavu — uma cidade de cerca de 1 milhão de habitantes, historicamente nunca capturada por nenhum grupo rebelde, sede de dezenas de organizações humanitárias internacionais — havia sido reportado na manhã de 30 de janeiro, com tropas das FARDC partindo de suas bases para o front mais ao norte, enquanto centenas de civis voluntariavam-se para alistar-se no exército congolês, conforme noticiaram a Al Jazeera e a Reuters. O Quênia, enquanto presidente rotativo da Comunidade da África Oriental (CAE), havia convocado uma cúpula de emergência para 29 de janeiro para discutir a crise, com participação prevista dos presidentes da região, conforme relataram o Soufan Center e a ACLED.O papel de Ruanda no conflito era o elemento mais explosivo diplomaticamente. Um relatório do Grupo de Especialistas da ONU submetido ao Conselho de Segurança e tornado público em julho de 2025 havia concluído que ao menos 6.000 soldados das RDF estavam desdobrados em território congolês apoiando operações do M23 no Norte e Sul do Kivu, conforme reproduziram extensamente o International Crisis Group, o Africa Center for Strategic Studies e o AEI. Esse apoio incluía treinamento em campos no território ruandês, logística de suprimentos, e o fornecimento de armamento sofisticado: drones armados turcos Bayraktar TB2, sistemas chineses de mísseis de defesa antiaérea de curto alcance e equipamentos de guerra eletrônica, incluindo dispositivos de interferência, que haviam sido usados na destruição de um veículo blindado da MONUSCO próximo a Sake em 25 de janeiro — incidente que a ONU caracterizou como "provocação direta" contra sua missão de paz, conforme relatou a Al Jazeera. Ruanda negava oficialmente seu envolvimento: o presidente Paul Kagame disse à CNN que "não sabia" se soldados ruandeses estavam no leste do Congo — declaração que analistas do International Crisis Group e da ACLED classificaram como inverossímil à luz das evidências documentadas. A justificativa oficial de Kigali era a presença das Forças Democráticas para a Libertação de Ruanda (FDLR) no leste congolês — milícia hutú que o M23 e Ruanda acusavam de ser uma ameaça existencial por incluir descendentes dos perpetradores do genocídio de 1994. A DRC havia recusado-se a romper com a FDLR, e esse impasse estava no coração do bloqueio diplomático, conforme analisou o International Crisis Group em relatório de dezembro de 2025.A dimensão geopolítica do conflito era ainda mais ampla. O Burundi — cujo governo de maioria hutú temia que um M23 apoiado por Ruanda no Kivu do Sul representasse uma ameaça existencial, dado que Uvira, próximo alvo do grupo, fica a apenas 30 km de Bujumbura — havia desdobrado aproximadamente 3.000 soldados para apoiar as FARDC no front sul, conforme registraram a Al Jazeera e a Reuters. Uganda era acusado de apoiar indiretamente o M23, enquanto forças ugandesas (UPDF) operavam na região com mandato próprio contra os rebeldes das Forças Democráticas Aliadas (ADF), criando uma estrutura em que tropas de quatro Estados soberanos diferentes estavam de alguma forma presentes no leste congolês — um cenário que remetia às guerras do Congo de fins dos anos 1990, conforme contextualizou o Africa Center for Strategic Studies em análise publicada em 28 de janeiro de 2026. O International Crisis Group havia publicado em 29 de janeiro análise classificando o risco de "guerra regional" como real e urgente, e pedindo ação diplomática imediata de Washington, Doha e capitais africanas.No campo diplomático, dois processos paralelos estavam em curso mas mostravam-se insuficientes para conter a escalada. O primeiro eram as conversações de Doha entre a RDC e o M23, mediadas pelo Qatar e ainda em andamento. O segundo eram as conversações de Washington entre a RDC e Ruanda, que haviam produzido um acordo assinado por Tshisekedi e Kagame em dezembro de 2025 com Trump presente, comprometendo ambos a parar de apoiar grupos armados — um compromisso que os acontecimentos de janeiro demonstravam flagrantemente não estar sendo cumprido. Especialistas ouvidos pela Al Jazeera e pela Reuters advertiam que a motivação de Washington na mediação ia além da estabilidade regional: um acordo de paz poderia desbloquear o acesso americano a coltan, cobalto e outros minerais críticos da região, no contexto da competição global por cadeias de suprimento de tecnologia de ponta — particularmente relevante dado que o leste do Congo concentra uma parcela desproporcional das reservas mundiais de minerais essenciais para baterias de veículos elétricos e semicondutores de alta performance, conforme análise do Soufan Center.