Conselho de Segurança debate a escalada de violência no Haiti e avalia plano de estabil...

Segurança e Paz — América Central e Caribe

Encontro em Nova York destaca a urgência de financiamento para desarmamento e a ampliação imediata do efetivo militar no combate ao crime organizado no Caribe.

O cenário de violência e a pauta diplomáticaO Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) reuniu-se na segunda-feira (20) para avaliar o agravamento da crise institucional e humanitária no Haiti. Durante o primeiro semestre de 2026, relatórios oficiais registraram pelo menos 2.310 mortes, 99 sequestros e 699 casos de violência sexual decorrentes da atuação de grupos armados. Essas facções criminosas controlam cerca de 90% da capital, Porto Príncipe, e avançam sobre infraestruturas críticas, como portos e rodovias, para monopolizar cadeias de suprimentos. Diante desse quadro alarmante, os representantes diplomáticos reforçaram a necessidade de uma resposta coordenada para restaurar a soberania e a ordem pública no território caribenho.A ofensiva militar e os planos de pacificaçãoA resposta internacional de segurança ganhou novos contornos operacionais, embora ainda enfrente sérios desafios logísticos. A Força de Supressão de Gangues, estabelecida após a transição da missão multinacional em setembro do ano anterior, iniciou patrulhas contínuas e operações táticas de desmantelamento de barricadas. No entanto, o efetivo atual conta com apenas 1.000 militares, um número muito inferior aos 5.550 autorizados pelo mandato oficial. Para complementar a ofensiva militar, o Escritório Integrado da ONU no Haiti (Binuh) propôs um programa de Desarmamento, Desmantelamento e Reintegração (DDR). A implementação integral deste plano exige a criação de um fundo capaz de captar até 150 milhões de dólares para garantir a estabilidade financeira das ações em campo.Impactos sociais e o ecossistema ilícitoAlém das operações ostensivas, as autoridades alertaram para a profunda desestruturação do tecido social alimentada pelo crime transnacional. O tráfico ilegal de armas de fogo viabiliza os confrontos diretos, enquanto o comércio ilícito de entorpecentes consolida o país como um ponto logístico central nas rotas marítimas. Esse ecossistema criminoso afeta diretamente a população civil, gerando uma das mais graves crises globais de proteção infantil, com milhares de violações documentadas e o aliciamento em massa de menores. Representantes de agências de controle de drogas ressaltaram que a pacificação permanente depende de um sistema judiciário funcional e de investigações financeiras rigorosas. Sem a consolidação de instituições estatais sólidas, as vitórias obtidas pelas tropas correm o risco de se tornarem ganhos efêmeros.Transição política e as perspectivas futurasA superação da instabilidade armada caminha paralelamente à urgência de restaurar a governança democrática local. O governo de transição alcançou progressos recentes com a adoção de um decreto eleitoral revisado e a aprovação de um orçamento estatal específico para o pleito. Nesse cenário, o Brasil, valendo-se de sua longa experiência na liderança de missões de paz anteriores no território caribenho, defende historicamente que a pacificação sustentável exige a união de medidas de segurança com o desenvolvimento socioeconômico e o respeito absoluto à soberania haitiana. Membros do Conselho de Segurança foram unânimes em cobrar a definição de um calendário eleitoral claro, capaz de conduzir a uma votação transparente. O grande desafio para os próximos meses consiste em garantir que o compromisso da comunidade internacional se traduza em estabilidade efetiva e duradoura para a população do país.