Protestos estudantis no Irã chegam ao 5º dia consecutivo; regime reprime em meio a nego...
Direitos Humanos — Oriente Médio
Universitários iranianos realizam o quinto dia consecutivo de manifestações anti-regime em várias cidades do país em 25 de fevereiro; protestos ocorrem simul...
Estudantes universitários iranianos realizaram nesta quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026, o quinto dia consecutivo de protestos anti-regime em diversas cidades do Irã, em atos que expressavam tanto a insatisfação com as condições econômicas como resistência à escalada militar em curso — protestos que ocorriam no mesmo dia em que o chanceler Araghchi deixava o país em direção a Genebra e o vice-presidente americano J.D. Vance ameaçava ação militar caso as negociações não produzissem resultados. O movimento estudantil das últimas semanas inseria-se no contexto dos protestos mais amplos que haviam eclodido em 28 de dezembro de 2025 e continuavam a desafiar o regime islâmico, apesar da brutal repressão dos meses anteriores.Estudantes universitários iranianos realizaram protestos anti-regime pelo quinto dia consecutivo em 25 de fevereiro, confirmou o relatório diário do Critical Threats (AEI). O dado era notável porque representava uma persistência extraordinária num contexto de repressão severa: o regime havia matado pelo menos 7.000 pessoas desde o início dos protestos em dezembro de 2025, segundo o HRANA, e havia realizado prisões em massa de líderes estudantis, ativistas e professores universitários.As manifestações estudantis de 25 de fevereiro tinham uma dimensão específica que as diferenciava dos protestos gerais que haviam marcado os meses anteriores: eram explicitamente anti-nucleares, pedindo que o governo não usasse o programa nuclear como justificativa para continuar empobrecendo a população e arriscar uma guerra devastadora com os EUA. "Nenhuma bomba, nem nuclear nem empregada contra nós" era um dos slogans que circulava nas redes sociais iranianas apesar do bloqueio quase total de internet, segundo relatos de ativistas da diáspora que conseguiam receber mensagens de dentro do país. Os estudantes também pediam a libertação de colegas presos durante os protestos desde dezembro.As condições econômicas que desencadearam os protestos anti-regime em dezembro de 2025 continuavam a piorar, segundo análise do Critical Threats. A hiperinflação havia corroído os salários e as economias das famílias iranianas de forma acelerada: o rial iraniano havia perdido mais da metade de seu valor em relação ao dólar americano nos doze meses anteriores, tornando os produtos importados inacessíveis para a maior parte da população. A crise energética doméstica — paradoxal para um dos maiores países produtores de petróleo do mundo — havia se agravado com as sanções e com os danos às instalações petrolíferas causados pelos ataques militares de junho de 2025, resultando em racionamentos frequentes de gás e eletricidade mesmo no inverno.A mobilização estudantil de fevereiro de 2026 ocorria num cenário de particular complexidade política. Parte dos protestos tinha caráter reformista — pedindo mudanças dentro do sistema islâmico, não sua derrubada — enquanto outra parte era claramente revolucionária, exigindo o fim da República Islâmica e a realização de um referendo sobre a forma de governo. A fissura entre reformistas e revolucionários havia sido uma das vulnerabilidades históricas do movimento de oposição iraniano desde a Revolução Verde de 2009, e o regime explorava essa divisão para isolar os grupos mais radicais e negociar concessões pontuais com os mais moderados.A presença da guerra ameaçada como pano de fundo das manifestações criava uma dinâmica inédita. Para parte dos manifestantes — especialmente aqueles que tinham perdido familiares na repressão dos meses anteriores — qualquer ataque americano que pudesse derrubar o regime seria visto com ambiguidade; para outra parte, a perspectiva de guerra e de mais morte era inadmissível independentemente do regime. O príncipe exilado Reza Pahlavi havia tentado navegar essa tensão ao declarar que as manifestações da diáspora na Europa e na América do Norte eram um sinal de que o povo iraniano queria sua própria libertação — e que qualquer ataque externo "aceleraria" um processo que já estava em marcha internamente.Para a Comissão de Direitos Humanos da ONU e para organizações como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, os protestos estudantis de fevereiro de 2026 representavam a continuação documentada de um padrão de violações sistemáticas dos direitos à liberdade de expressão, reunião pacífica e integridade pessoal no Irã. O Relator Especial da ONU para os Direitos Humanos no Irã, Javaid Rehman, havia publicado relatório em fevereiro documentando o padrão de execuções sumárias, torturas e desaparecimentos forçados dos meses anteriores, e convocou uma sessão especial do Conselho de Direitos Humanos para discutir a situação.Para o Brasil, o movimento estudantil iraniano tinha relevância tanto como questão de direitos humanos quanto como variável geopolítica. O governo Lula, como membro eleito do Conselho de Direitos Humanos da ONU para o biênio 2026-2027, precisava posicionar-se sobre a situação no Irã — o que colocava o Itamaraty num equilíbrio delicado entre a defesa dos direitos humanos, que a tradição diplomática brasileira defendia universalmente, e a não intervenção em assuntos internos, que era outro pilar da política externa brasileira.