Gaza: enquanto negociações da Fase 2 começam em Doha, relatório da ONU confirma 48.200 ...
Segurança e Paz — Oriente Médio
Em 29 de janeiro, delegações israelenses e do Hamas iniciaram em Doha as primeiras negociações da Fase 2 do cessar-fogo — com Netanyahu exigindo desmilitariz...
Na quarta-feira, 29 de janeiro de 2026, negociadores israelenses e representantes do Hamas sentaram-se pela primeira vez à mesma mesa para discutir os termos da Fase 2 do acordo de cessar-fogo de Gaza, em Doha, no Qatar — com a mediação direta do primeiro-ministro qatarí Mohammed bin Abdulrahman Al Thani e a presença do diretor da CIA, John Ratcliffe, como representante pessoal do enviado americano Steve Witkoff, conforme noticiaram a Al Jazeera e a BBC. A Fase 1, firmada em janeiro e baseada na Resolução 2802 do Conselho de Segurança da ONU, havia estabelecido um cessar-fogo temporário de seis semanas, com a libertação gradual dos últimos reféns vivos em poder do Hamas em troca de prisioneiros palestinos detidos por Israel — processo que, segundo o governo israelense, havia sido concluído na semana anterior, com a libertação dos últimos 20 reféns vivos confirmados, conforme contextualizou o The Guardian. A Fase 2 era o verdadeiro nó da negociação: previa o fim permanente dos combates, a retirada total das forças israelenses de Gaza e a devolução dos restos mortais dos reféns mortos ainda não localizados — temas sobre os quais as posições iniciais de Israel e Hamas eram, por todos os relatos, radicalmente incompatíveis.O premiê israelense Binyamin Netanyahu, ao anunciar o envio da delegação a Doha, deixou claro as linhas vermelhas de Jerusalém em declaração pública: Israel não aceitaria um acordo que não incluísse a desmilitarização completa de Gaza e o fim do controle do Hamas sobre o território. "A próxima fase é desarmamento, não reconstrução", disse Netanyahu, numa formulação que foi amplamente interpretada como sinalização de que Israel estava disposto a retomar os combates caso o Hamas recusasse entregar suas armas, conforme registrou a BBC. Do lado do Hamas, o chefe político Basem Naim havia dito à Al Jazeera na semana anterior que o movimento estava disposto a "armazenar" as armas — não a entregá-las — durante um período de dez anos, numa formulação que deixava aberta a possibilidade de retomada do conflito no futuro. Trump havia declarado publicamente em Davos que o Hamas deveria "desarmar em semanas ou ser destruído rapidamente" — num ultimato que os analistas interpretavam como pressão para forçar a Fase 2 a avançar nos termos israelenses, conforme contextualizado pelo The Guardian.Paralelamente às negociações em Doha, um relatório conjunto do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (ACNUDH), do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) e de quatro agências especializadas — UNICEF, OMS, UNRWA e PMA — fornecia o inventário mais abrangente e rigoroso até a data das consequências humanas e materiais da guerra iniciada em 7 de outubro de 2023. O relatório, divulgado em Genebra e simultaneamente em Nova York, confirmou 48.200 mortes verificadas por metodologia de contagem direta — mas estimou que a cifra real de mortos, incluindo corpos sob escombros e mortes por doenças e desnutrição causadas pelo colapso do sistema de saúde, superava 70.000 pessoas, conforme noticiaram a BBC e a Al Jazeera. Do total de mortes verificadas, 59% eram mulheres e crianças — uma proporção que o relatório descreveu como "sem precedentes em conflitos modernos" —, e 39% eram homens adultos em idade civil, conforme detalhou a BBC. O relatório estimou ainda que 10.000 pessoas permaneciam desaparecidas sob os escombros de Gaza, sem possibilidade de recuperação no curto prazo dado o nível de destruição das infraestruturas.A dimensão da destruição física documentada pelo relatório era igualmente avassaladora. Imagens de satélite e inspeções de campo indicavam que 68% de todas as estruturas de Gaza haviam sido danificadas ou destruídas — incluindo 92% das estradas, a totalidade dos hospitais em sua capacidade pré-guerra, 88% das escolas, e todos os sistemas de abastecimento de água e tratamento de esgoto, conforme reportou a BBC com base no texto do relatório. O custo estimado de reconstrução, segundo a nota metodológica do relatório, variava entre 40 e 80 bilhões de dólares, dependendo dos cenários de segurança que permitissem ou não o retorno de populações deslocadas. Em termos per capita, Gaza havia se tornado, segundo os cálculos do Banco Mundial citados no relatório, o território com maior proporção de população deslocada internamente do mundo — com 1,9 milhão de pessoas, de uma população total de 2,2 milhões, deslocadas de suas residências originais em algum momento durante o conflito. A faixa de Gaza, que antes da guerra tinha uma das maiores densidades populacionais do planeta, havia se transformado, nas palavras do relatório, numa "paisagem de destruição quase total" em vastas extensões do seu território.A seção mais politicamente explosiva do relatório era aquela que tratava da fome e da ajuda humanitária. Com base em dados do Integrated Food Security Phase Classification (IPC), o relatório confirmou que 500.000 pessoas em Gaza — aproximadamente 22% da população — estavam em situação de "fome catastrófica" (Fase 5, a máxima da escala), e que mais de 90% da população estava em algum grau de insegurança alimentar. O relatório concluiu que a situação de fome era "estruturalmente induzida" pela combinação de destruição da infraestrutura de alimentos, restrições israelenses ao ingresso de ajuda humanitária e colapso dos sistemas de distribuição — e não apenas resultado de dinâmicas de combate. Citou dados da UNRWA que indicavam que, entre outubro e dezembro de 2025, apenas 30% das solicitações de permissão para convoys humanitários apresentadas pelas agências da ONU haviam recebido resposta das autoridades israelenses, e que 61% das respostas recebidas haviam sido negativas, conforme detalhou a BBC. A terminologia escolhida pelo relatório — "fome estruturalmente induzida" — foi a mais próxima que documentos da ONU chegaram de usar a linguagem legal de "uso da fome como arma de guerra", proibido pelo artigo 54 do Protocolo Adicional I às Convenções de Genebra e pelo Estatuto de Roma.A reação internacional às negociações da Fase 2 em Doha e ao relatório da ONU foi intensa e imediata. A União Europeia, pela voz da Alta Representante Kaja Kallas, reafirmou que a Fase 2 deveria resultar num "cessar-fogo permanente e irreversível" e que a reconstrução de Gaza deveria ser parte integrante de qualquer acordo de paz — sem a desmilitarização preventiva exigida por Israel como pré-condição. A Jordânia e o Egito — os dois países árabes com fronteiras com Israel e que mais diretamente suportam o peso de refugiados palestinos — emitiram declaração conjunta rejeitando qualquer proposta de transferência permanente da população de Gaza para o Sinai ou a Jordânia, numa rejeição clara ao chamado "plano de desenvolvimento" de Trump que previa a relocação dos gazenses, conforme noticiou a Al Jazeera. O Brasil, pela Missão Permanente em Genebra, endossou as conclusões do relatório e reiterou o apoio à abertura de corredores humanitários permanentes e ao reconhecimento do Estado palestino — posição já expressa pelo governo Lula desde o início do conflito —, conforme confirmou o Itamaraty em nota à imprensa.A situação da UNRWA — a agência da ONU responsável pelo apoio aos refugiados palestinos, que havia sido alvo de acusações israelenses de cumplicidade com o Hamas e cujo financiamento havia sido suspenso pelos EUA, pelo Reino Unido e por outros países no início de 2024 — permanecia crítica. O relatório conjunto da ONU confirmou que a UNRWA operava com 60% do seu orçamento normal, que 164 funcionários da agência haviam sido mortos durante o conflito — o maior número de baixas entre funcionários de uma agência da ONU em qualquer conflito moderno —, e que a interrupção do financiamento americano havia forçado o corte de 40% dos programas de distribuição de alimentos nos campos de refugiados, tanto em Gaza quanto na Cisjordânia, na Jordânia, no Líbano e na Síria. A situação da Cisjordânia, frequentemente eclipsada pela cobertura de Gaza, era descrita pelo relatório como "em rápida deterioração": 847 palestinos haviam sido mortos por forças israelenses ou colonos na Cisjordânia desde outubro de 2023, e mais de 120 mil palestinos haviam sido deslocados de comunidades nos vales do Jordão por operações militares israelenses, conforme detalhou a BBC com base no texto do relatório.