Von der Leyen e Costa desfilam no Dia da República da Índia — e negociações do maior ac...

Economia e Comércio — Global

No Dia da República da Índia, em 26 de janeiro, Von der Leyen e Costa foram os primeiros duplos convidados de honra do desfile em Nova Déli desde 2018 — pren...

A imagem escolhida pela televisão estatal indiana para abrir a cobertura do 77º Dia da República da Índia, na segunda-feira, 26 de janeiro de 2026, dizia mais do que mil comunicados diplomáticos: a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, sentados ao lado do primeiro-ministro Narendra Modi na tribuna de honra da Kartavya Path — a grande avenida de Nova Déli onde os desfiles militares e os tableaux estaduais percorrem quilômetros sob o sol de janeiro —, tornaram-se os primeiros duplos convidados de honra das celebrações desde 2018. A escolha não era protocolar: era a sinalização mais eloquente possível do reposicionamento estratégico da Índia num momento em que os Estados Unidos impunham tarifas de 50% sobre produtos indianos e o mundo multilateral reordenava suas alianças, conforme sublinharam o portal canadense Asia Pacific Foundation e a Al Jazeera em suas coberturas do evento.O timing da visita havia sido meticulosamente construído. Conforme relatou a CBC News com base em declarações de autoridades europeias e indianas, Von der Leyen e Costa chegaram a Nova Déli em 25 de janeiro — um dia antes do desfile — e passaram a segunda-feira inteiramente imersos nas celebrações do Dia da República ao lado de Modi. Era a primeira vez na história que líderes da União Europeia eram convidados nessa condição simbólica máxima: o convite para estar ao lado do primeiro-ministro na Kartavya Path é, no protocolo indiano, uma declaração pública de parceria estratégica. Paralelamente ao desfile, nas últimas horas do domingo 25 e ao longo da madrugada de segunda-feira, negociadores da Comissão Europeia e do Ministério do Comércio e Indústria da Índia trabalhavam em ritmo acelerado para resolver os últimos pontos de impasse das negociações do Acordo de Livre-Comércio UE-Índia. As conversas de última hora na noite de segunda-feira 26, segundo fontes familiarizadas com as discussões ouvidas pela agência AFP e reproduzidas pela Al Jazeera, tinham se concentrado especialmente no impacto do Mecanismo de Ajuste de Carbono nas Fronteiras da UE (CBAM) sobre o setor siderúrgico indiano.O anúncio formal do acordo seria realizado na manhã de terça-feira, 27 de janeiro, na Cúpula UE-Índia no Palácio Hyderabad House, em Nova Déli, com a presença de Modi, Von der Leyen e Costa. No entanto, ao longo do dia 26, os grandes veículos de imprensa internacional — CNBC, NPR, Reuters, Al Jazeera e CBC — já confirmavam os detalhes do acordo com base em fontes das duas delegações, antes de qualquer comunicado oficial. Von der Leyen havia postado no domingo, ao chegar a Nova Déli, que os dois lados estavam "à beira de um FTA histórico" e que a UE estava obtendo "o mais alto nível de acesso já concedido por qualquer parceiro comercial no mercado indiano, historicamente protegido" — uma declaração que, na linguagem diplomática europeia, equivalia a uma confirmação antecipada do fechamento do acordo, conforme interpretou a CBC News.O acordo — descrito por Von der Leyen como "a mãe de todos os acordos" e por Modi como "um novo modelo para a prosperidade compartilhada" — cria a maior zona de livre-comércio bilateral da história em termos populacionais: dois bilhões de pessoas, que representam em conjunto cerca de 27 trilhões de dólares em PIB combinado e aproximadamente 25% do Produto Interno Bruto global, segundo a Al Jazeera. As negociações duraram quase duas décadas: iniciadas formalmente em 2007, foram suspensas em 2013 por impasses em patentes farmacêuticas, liberalização de serviços e acesso a compras governamentais, e relançadas em 2022 após a invasão russa da Ucrânia impor urgência à diversificação de cadeias de suprimento europeias. O comércio bilateral de bens entre a UE e a Índia havia crescido de 74 bilhões de dólares em 2020 para 120 bilhões de euros em 2024, com a adição de 60 bilhões em serviços, segundo dados da Comissão Europeia citados pelo portal Roncucci & Partners.A arquitetura do acordo final revela a extensão das concessões indianas — incomuns para um país historicamente protecionista. A Índia concordou em eliminar ou reduzir tarifas sobre 96,6% dos produtos exportados pela UE, gerando uma economia estimada de 4 bilhões de euros anuais em direitos alfandegários para as empresas europeias, conforme anunciou a própria Comissão. Trinta por cento dos produtos importados da UE terão tarifas reduzidas a zero de imediato. Automóveis europeus — cujas tarifas indianas chegavam a 110% — terão as alíquotas reduzidas gradualmente a 10% ao longo de cinco anos, com uma cota anual de 250 mil veículos. As tarifas sobre maquinário (até 44%), produtos químicos (22%) e farmacêuticos (11%) serão, em sua maioria, eliminadas. Aeronaves e veículos espaciais europeus terão tarifas zeradas para quase todos os produtos, e equipamentos ópticos, médicos e cirúrgicos para 90% deles. Vinhos, atualmente taxados a 150% na Índia, terão suas tarifas reduzidas a entre 20 e 30%; destilados, a 40%; e cerveja, a 50%, conforme detalhou a Al Jazeera com base no texto divulgado pela Comissão.Do lado europeu, a UE concedeu acesso imediato com tarifa zero para exportações indianas de têxteis, couro, calçados, joias, gemas, produtos marinhos, produtos químicos e plásticos — setores intensivos em mão de obra que empregam dezenas de milhões de indianos e que estavam sob pressão crescente das tarifas de 50% impostas pelos EUA. Esses produtos correspondem a 33 bilhões de dólares em exportações indianas, que antes do acordo pagavam entre 4% e 26% de tarifas na entrada no mercado europeu, conforme calculou a CNBC com base em dados da Nomura. O acordo também estabelece um marco para a mobilidade temporária de profissionais — incluindo visitantes de negócios, transferências internas de corporações e fornecedores independentes de serviços —, uma vitória especialmente importante para o setor indiano de tecnologia da informação, que há décadas buscava acesso mais facilitado ao mercado europeu de serviços. No total, a UE abrirá 144 subsegmentos de serviços para a Índia, enquanto a Índia abrirá 102 para a UE, incluindo nos setores financeiro, marítimo e de telecomunicações, segundo a Al Jazeera.O contexto geopolítico que tornou o acordo possível — após 19 anos de negociações frustradas — foi explicitamente reconhecido por todos os lados. Conforme analisou a economista-chefe da Nomura para Índia e Ásia, Sonal Varma, citada pela CNBC, o acordo era "a resposta estratégica de Nova Déli ao choque tarifário americano": ao garantir acesso preferencial ao maior mercado consumidor democrático do mundo, a Índia reduzia estruturalmente sua vulnerabilidade às oscilações da política comercial de Washington. O analista sênior do International Crisis Group para a Índia, Praveen Donthi, foi ainda mais direto ao ser ouvido pela CBC News: "Todo esse momentum que vemos é graças ao presidente Trump." Modi, por sua vez, estava sob pressão interna para entregar resultados comerciais concretos após as negociações com os EUA terem fracassado no outono de 2025, e o acordo com a UE era sua resposta: "Este é o jeito de Nova Déli de enviar uma mensagem ao mundo — vamos diversificar. Não seremos dependentes de um único país, nem mesmo do mais poderoso do mundo", afirmou Donthi. Von der Leyen, em declaração que reforçava a dimensão sistêmica do acordo, afirmou que ele "reduz dependências estratégicas num momento em que o comércio é cada vez mais weaponizado" e que envia "uma mensagem forte de que a cooperação é a melhor resposta aos desafios globais", conforme reproduziu a CBC News.O acordo continha, no entanto, tensões não inteiramente resolvidas que analistas apontavam como potenciais fontes de controvérsia futura. O Mecanismo de Ajuste de Carbono nas Fronteiras da UE (CBAM) — que impõe taxas sobre importações de aço, alumínio, cimento, fertilizantes e outros produtos de países com políticas climáticas menos rigorosas que a da UE — foi mantido no texto final, apesar das objeções indianas, que o consideravam uma barreira não-tarifária disfarçada de norma ambiental. A Comissão comprometeu-se a fornecer recursos para apoiar a modernização dos setores de aço e alumínio indianos, reduzindo suas emissões até que seus sistemas de precificação de carbono se alinhem aos padrões europeus. Em paralelo ao acordo comercial, a alta representante da UE para política externa, Kaja Kallas, e o ministro das Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, assinaram uma Parceria de Segurança e Defesa UE-Índia — similar às que o bloco já mantém com Japão e Coreia do Sul —, expandindo o escopo da aliança para além do comércio, num sinal da convergência estratégica entre os dois blocos numa época em que tanto a Índia quanto a Europa buscam reduzir suas dependências, respectivamente, de hardware militar russo e de tecnologia americana, segundo a Al Jazeera.Do ponto de vista da implementação, o acordo ainda precisaria percorrer um longo caminho antes de entrar em vigor pleno. O texto teria que passar por revisão jurídica formal e tradução oficial para todas as línguas da UE em Bruxelas e em Nova Déli — processo que, segundo o economista de comércio Biswajit Dhar citado pelo portal Roncucci & Partners, poderia durar meses. A entrada em vigor completa exigiria aprovação do Conselho da UE, consentimento do Parlamento Europeu e aprovação do Conselho de Ministros da União da Índia, com o cronograma mais provável apontando para o início de 2027. No entanto, o ministro do Comércio e Indústria indiano, Piyush Goyal, afirmou em entrevista coletiva reproduzida pela CNBC que esperava que partes do acordo pudessem entrar em vigor ainda em 2026. A Comissão Europeia projetou que as exportações europeias para a Índia poderiam dobrar até 2032, chegando a 240 bilhões de euros em bens — o que acrescenta ao acordo uma dimensão de transformação estrutural dos padrões de comércio global que os analistas do Fórum Econômico Mundial descreveram como "a consolidação do maior bloco comercial democrático do mundo".