Irã diz que acordo nuclear está "ao alcance" em Genebra; Rubio cobra mísseis balísticos

Segurança e Paz — Oriente Médio

Chanceler iraniano voa para Genebra declarando que um acordo histórico é "atingível" — mas Rubio diz no mesmo dia que os mísseis iranianos são "um grande pro...

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, partiu nesta quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026, de Teerã em direção a Genebra para liderar a delegação iraniana na terceira rodada de negociações nucleares indiretas com os Estados Unidos, agendada para o dia seguinte, 26 de fevereiro, com mediação do Sultanato de Omã. Antes de embarcar, Araghchi declarou publicamente que um acordo "histórico" para evitar o conflito militar era "atingível" e que o Irã chegava à mesa de negociações com "posição cristalina" contrária ao desenvolvimento de armas nucleares e com propostas concretas para uma resolução. A declaração foi uma das mais otimistas proferidas por um alto funcionário iraniano desde o início das conversas em 6 de fevereiro."A delegação iraniana, liderada pelo ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi, deixou Teerã rumo a Genebra para participar da terceira rodada de negociações nucleares", confirmaram fontes iranianas e o Times of Israel naquele dia. Araghchi postou nas redes sociais que o Irã possuía uma "posição cristalina" contrária ao desenvolvimento de armas nucleares e que a diplomacia devia ser priorizada para evitar nova escalada. A mensagem visava ao mesmo tempo o público internacional e o público doméstico iraniano, que acompanhava com ansiedade o desfecho de um processo de negociações realizado sob constante ameaça de ataque militar americano.O contexto imediatamente anterior ao dia 25 era de sinais cruzados e ambiguidade calculada. Na véspera, o vice-presidente americano J.D. Vance dissera ao canal Fox News que, embora Trump fosse "tentar resolver diplomaticamente", o presidente americano tinha "o direito de usar ação militar" e que esperava que os iranianos levassem as ameaças "a sério" nas negociações do dia seguinte. Vance dissera que Trump "tinha o direito de usar ação militar" e que "você não pode deixar o regime mais louco e pior do mundo ter armas nucleares." Ao mesmo tempo, Trump havia declarado durante o Discurso do Estado da União, pronunciado em 24 de fevereiro, que o Irã estava "revivendo esforços para construir armas nucleares" e que os EUA estavam "preparados para agir se necessário" — uma linguagem que, lida com as revelações de planejamento militar das semanas anteriores, soava como ultimato.Neste mesmo dia 25, o secretário de Estado Marco Rubio amplificou as preocupações americanas numa direção que complicava o caminho para um acordo. Rubio afirmou que a recusa do Irã em discutir seu programa de mísseis balísticos era "um grande problema" e que as conversas precisariam eventualmente se expandir além do programa nuclear. A declaração era significativa: toda a arquitetura das negociações em curso havia sido construída em torno de um único foco — o dossier nuclear —, com Teerã insistindo desde o início que o programa de mísseis era estritamente defensivo e não negociável. Ao dizer que os mísseis eram "um grande problema", Rubio sinalizava que qualquer acordo estritamente nuclear poderia não ser suficiente para satisfazer Washington — potencialmente tornando o acordo impossível ou deslocando as exigências americanas para além do que o Irã aceitaria.Rubio também afirmou naquele dia que o Irã estava "tentando alcançar mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs)", referenciando uma avaliação da Agência de Inteligência de Defesa americana de 2025 que indicava que o Irã teria a capacidade de desenvolver um ICBM até 2035. A afirmação elevava o debate: enquanto os mísseis de médio e curto alcance iranianos eram uma ameaça regional, ICBMs seriam capazes de atingir o território americano continental — tornando o programa de mísseis uma questão de segurança nacional americana de primeira ordem, e não apenas de segurança regional. O Irã havia consistentemente rejeitado qualquer negociação sobre seu programa de mísseis, classificando-os como instrumento de defesa legítima.A leitura analítica do día 25 de fevereiro era, portanto, de máxima ambiguidade. De um lado, Araghchi declarava que a paz era "atingível" e voava para Genebra com a delegação nuclear completa. Do outro, Vance reiterava a ameaça militar, Rubio adicionava uma nova condição sobre os mísseis, e informações segundo as quais Trump havia dito a assessores que estava "inclinado" a um primeiro ataque limitado circulavam nos meios analíticos desde o dia 22 de fevereiro. Uma fonte sênior americana disse ao Wall Street Journal em 26 de fevereiro que os EUA queriam que o Irã limitasse seu programa de mísseis balísticos e seu apoio a proxies, mas que as conversas em Genebra se concentrariam no tema nuclear. A separação de temas era tática, não estratégica — e os analistas de não proliferação alertavam que qualquer acordo nuclear sem resolução dos mísseis e dos proxies seria insustentável no médio prazo.Para o Brasil, os eventos de 25 de fevereiro de 2026 eram de alta relevância por múltiplas razões. A posição histórica do Itamaraty de defesa de soluções negociadas para crises nucleares e de oposição ao uso unilateral da força colocava o governo Lula numa posição de torcedor discreto pelo sucesso das negociações de Genebra. Ao mesmo tempo, o Brasil tem seu próprio programa de enriquecimento de urânio para fins civis em Resende, o que tornava qualquer precedente sobre o escopo do direito ao enriquecimento pacífico diretamente relevante para a política nuclear brasileira. A retórica americana sobre ICBMs iranianos também inseria o debate no contexto mais amplo de proliferação de mísseis de longo alcance, um tema tratado pelo Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR), do qual o Brasil é signatário desde 1995.