TPI confirma saída de Burkina Faso Mali e Níger do Estatuto de Roma

Segurança e Paz — África

Estados do Sahel oficializam retirada da corte internacional alegando defesa da soberania contra repressão neocolonialista.

Estados do Sahel oficializam ruptura com a jurisdição de HaiaO Tribunal Penal Internacional (TPI) confirmou nesta quinta-feira, 02 de julho de 2026, o recebimento das notificações oficiais de retirada de Burkina Faso, Mali e Níger do Estatuto de Roma. O movimento ocorre após o depósito das notificações formais junto ao Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) entre os dias 18 e 24 de junho, iniciando o prazo de um ano para que o desligamento se torne efetivo. Os três governos, atualmente liderados por juntas militares, justificaram a decisão em um comunicado conjunto, classificando a corte internacional como um instrumento de repressão neocolonialista incapaz de julgar com imparcialidade crimes de agressão e genocídio. Esta decisão marca um ponto de inflexão na relação entre as nações africanas e a justiça internacional, consolidando um afastamento que vinha sendo sinalizado desde o final de 2025. O anúncio reflete o aumento das tensões diplomáticas e a busca por autonomia jurídica por parte de regimes que enfrentam pressões externas constantes.Reconfiguração geopolítica e o fortalecimento da Aliança do SahelA saída do tribunal de Haia insere-se em um contexto mais amplo de reorganização regional na África Ocidental, caracterizado pela criação da Aliança dos Estados do Sahel (AES). Esta nova organização foi estabelecida após os três países romperem com a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), alegando interferência estrangeira e ineficiência do bloco no combate ao terrorismo islâmico. Ao mesmo tempo em que reduzem a cooperação militar e jurídica com as potências ocidentais, as capitais Uagadugu, Bamaco e Niamei fortalecem laços estratégicos com a Rússia para garantir a segurança de seus territórios. A instabilidade política, agravada por oito golpes de Estado na região entre 2020 e 2023, impulsionou a narrativa de que as instituições internacionais tradicionais não atendem às necessidades de segurança locais. Com isso, a rejeição ao estatuto jurídico internacional surge como uma ferramenta de afirmação política das lideranças militares perante suas populações.Persistência de obrigações jurídicas perante o Estatuto de RomaApesar do anúncio de retirada, a Presidência da Assembleia dos Estados Partes ressaltou que as obrigações assumidas durante o período de adesão permanecem vigentes por meio do Artigo 127 do Estatuto de Roma. Este dispositivo jurídico estabelece que a saída de um membro não afeta a cooperação em investigações ou processos criminais já iniciados antes da data em que o desligamento se torne efetivo, previsto para junho de 2027. No caso específico de Mali, o tribunal mantém uma investigação aberta desde 2013 sobre crimes de guerra cometidos nas regiões de Gao, Timbuktu e Kidal, áreas historicamente afetadas pela presença de grupos insurgentes. Organizações de direitos humanos, como a Human Rights Watch, continuam a relatar possíveis atrocidades cometidas tanto por militantes quanto por forças regulares, o que mantém a pressão sobre a corte em Haia. A continuidade desses exames judiciais representa um desafio técnico e diplomático considerável, visto que a cooperação estatal é essencial para a coleta de provas e execução de mandados.Desafios à governança global e a posição das grandes potênciasA crise de legitimidade enfrentada pelo sistema de Haia é acentuada pela postura recente de grandes potências mundiais que, assim como os Estados do Sahel, questionam a autoridade do tribunal. Recentemente, em 29 de junho de 2026, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos (EUA) notificou oficialmente o Tribunal Penal Internacional sobre sua rejeição total à autoridade da corte sobre cidadãos americanos. A administração estadunidense, amparada em ordens executivas que impõem sanções contra promotores internacionais, reforça a tese de que o tribunal representa uma ameaça à segurança nacional e à soberania doméstica. Este cenário de desengajamento coletivo fragiliza a aspiração de uma justiça penal universal, colocando em xeque o futuro das instituições multilaterais criadas no início do século XXI. Enquanto o Brasil mantém sua posição histórica de apoio ao multilateralismo e ao Direito Internacional, o sistema global observa uma fragmentação que pode redefinir os mecanismos de responsabilização por crimes internacionais nos próximos anos.