FMI alerta para riscos de interferência política em bancos centrais e revisa projeções ...

Economia e Comércio — Global

FMI divulga atualização do World Economic Outlook com alerta sobre riscos de interferência política em bancos centrais, citando investigações contra Jerome P...

O Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou nesta segunda-feira, 19 de janeiro, a atualização trimestral de seu relatório World Economic Outlook (WEO), trazendo um alerta contundente sobre os riscos da interferência política em instituições econômicas independentes e revisando as projeções de crescimento para as principais economias do planeta. O documento, intitulado "Economia mundial: estável perante forças divergentes", aponta que, embora a expectativa de crescimento global para 2026 tenha sido ligeiramente elevada para 3,3%, a expansão está concentrada em poucos setores e permanece vulnerável a choques geopolíticos, tensões comerciais e fragilidades orçamentárias.Um dos pontos centrais do relatório é a defesa explícita da independência dos bancos centrais como condição primordial para a estabilidade macroeconômica e o crescimento sustentável. O FMI citou diretamente o caso das investigações abertas pelo Departamento de Justiça do governo Trump contra o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, como exemplo de interferência política que pode ampliar riscos para a economia global. "Preservar a independência dos bancos centrais, jurídica e operacional, é crítica para evitar a dominância fiscal, ancorar expectativas de inflação e permitir que alcancem seus mandatos", declarou o Fundo no documento.A instituição sediada em Washington alertou que "a interferência política em instituições econômicas independentes pode aumentar o risco de erros políticos, erodindo a confiança pública". O relatório destacou que as investigações contra Powell tiveram efeitos negativos para a recuperação do dólar e contribuíram para aumentar a volatilidade nos mercados financeiros globais. A advertência do FMI ocorre num momento em que a relação entre a Casa Branca e o Fed atingiu seu ponto mais tenso em décadas, com Trump pressionando publicamente por cortes mais agressivos nas taxas de juros.No campo das projeções econômicas, o FMI revisou para cima as estimativas de crescimento dos Estados Unidos, que devem acelerar de 2,1% em 2025 para 2,4% em 2026, impulsionadas por investimentos em tecnologia e pelos incentivos fiscais da chamada "Big Beautiful Bill". Em contrapartida, a economia da China deve desacelerar de 5% no ano passado para 4,5% neste ano, refletindo a persistente crise no setor imobiliário e a fraca demanda doméstica, parcialmente compensadas por exportações resilientes. Para a zona do euro, o Fundo projeta crescimento de 1,3% em 2026, ligeiramente acima da previsão anterior de 1,2%.O comércio global, por sua vez, deve sofrer uma desaceleração acentuada, caindo de 4,1% em 2025 para 2,6% neste ano, embora o resultado represente uma leve elevação em relação às projeções de outubro. O FMI avalia que o comércio continua relativamente robusto graças às exportações de tecnologia, que contrabalançam perdas em outras categorias, mas alerta que "tarifas adicionais específicas de setores, especialmente se impostas em indústrias a montante, podem criar estrangulamentos de oferta e impor um impacto desproporcional na atividade econômica e nos preços".O relatório também destaca a escalada das tensões geopolíticas como um risco significativo para a economia global. "Uma escalada significativa nas tensões geopolíticas, particularmente no Médio Oriente ou na Ucrânia, mas possivelmente também na Ásia e América Latina, pode desencadear choques negativos substanciais de oferta", alerta o FMI, mencionando possíveis perturbações em rotas de navegação e cadeias de abastecimento críticas. O documento ressalta que "picos de incerteza política interna, incluindo mas não limitados aos relacionados com eleições, podem elevar e alargar ainda mais a incerteza, pesando no sentimento e retendo o consumo e o investimento".Do lado fiscal, o FMI projeta que a dívida soberana global deve ultrapassar 100% do Produto Interno Bruto (PIB) até o fim da década, impulsionada por políticas expansionistas nos Estados Unidos, Japão e Alemanha. "Preocupações com a sustentabilidade orçamental nessas economias podem não apenas pressionar os seus próprios custos de financiamento, mas também apertar as condições financeiras mais amplas e amplificar a volatilidade dos mercados financeiros", adverte o Fundo. O documento ressalva que a emissão "pesada" de dívida e o apetite dos investidores estão remodelando os mercados rumo a vencimentos de curto prazo, o que tem provocado saltos e ampla volatilidade na ponta curta.Paralelamente às questões macroeconômicas, o FMI também dedicou atenção especial aos riscos associados ao setor tecnológico, particularmente ao investimento em inteligência artificial (IA). "Se as expectativas sobre os ganhos de produtividade impulsionados pela IA se revelarem demasiado otimistas e os resultados dececionarem, pode ocorrer uma queda acentuada no investimento real no setor de alta tecnologia", alertam os analistas do Fundo. As consequências desse cenário incluiriam a obsolescência de ativos, realocação de custos de capital e trabalho, e efeitos negativos sobre a riqueza que pesariam no consumo privado e no investimento.Do lado positivo, o FMI reconhece que a rápida adoção da IA pode melhorar a produtividade e impulsionar as perspectivas de crescimento a médio prazo, elevando o crescimento global em até 0,3 ponto percentual em 2026. No entanto, esses benefícios requerem políticas complementares para conter o potencial impacto nos preços da energia, aumentar os insumos intermediários críticos necessários e gerir as transições da força de trabalho.O documento também faz um alerta sobre os riscos de medidas não tarifárias que visem insumos críticos como minerais de terras raras, que podem perturbar as cadeias de abastecimento globais. "Mais países podem adotar uma postura protecionista, especialmente se o desvio e reencaminhamento do comércio tornarem-se disruptivos", observa o FMI. O recado é particularmente relevante num momento em que a China, maior produtora global de terras raras, tem utilizado esses recursos como instrumento geopolítico, e o governo Trump ameaça impor tarifas a aliados que não apoiarem suas ambições territoriais.Em resposta a esse quadro de oportunidades e riscos, o FMI defende que a reconstrução da capacidade orçamental dos países e a manutenção da sustentabilidade da dívida pública são fundamentais para garantir estabilidade e promover o crescimento. "No mínimo, é necessário o compromisso com uma consolidação orçamental credível a médio prazo", afirmam os analistas, recomendando que os países reforcem receitas fiscais, racionalizem despesas e fortaleçam a eficiência do gasto público. O Fundo também sugere que "os subsídios de base alargada e outras medidas de política industrial podem ser dispendiosos e disruptivos", defendendo que políticas industriais devem ser precisamente direcionadas para abordar falhas de mercado específicas.Na perspectiva do FMI, "elevar as perspectivas de crescimento a médio prazo continua a ser a estratégia mais eficaz para resolver dilemas macroeconómicos", e "reformas estruturais direcionadas aos mercados de trabalho, educação, quadros regulatórios e concorrência impulsionarão a produtividade, o produto potencial e a criação de emprego". A mensagem final da instituição é clara: a economia global encontra-se numa encruzilhada onde a trajetória de crescimento não é garantida, mas construída por escolhas políticas deliberadas.